Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

ODISSÉIA DE UMA VIDA.

 

Aos meus quatro ou cinco anos de idade morávamos na casa de uma tia (Carazinho). Até hoje, desconheço os motivos que levaram minha mãe e eu, a viver em um hotel. Da janela percebia-se abaixo um grande galpão que ela apontava e me dizia:
“Vá até lá. É lá que está teu pai.”
Eu nunca o tinha visto, e fui. Sentei-me sobre sacas empilhadas. Balançando meus cambitinhos olhava os empregados que iam e vinham, na esperança de que alguém falasse comigo. Não sei quanto esperei, até que se aproximou um jovem que pára frente a mim por alguns segundos, me olha e segue seu caminhar. Minutos depois, como ninguém mostrava interesse, saí, e por que não dizer, sentindo o que hoje compreendo ter sido frustração, pois esperava uma caricia, um “olá menininha,” ou algo que não, um rápido olhar.

 

Rio de Janeiro.

Deixando-me na casa de um seu irmão casado onde vivia também sua sogra, minha mãe decidiu viajar. Ali, também desconheci os carinhos devidos a uma criança, passando a ser alguém que servia para pequenos trabalhos domésticos. O tempo seguiu alheio às minhas carências e falta sentida da mãe que me aninhasse em seus braços, embalasse, contasse historinhas ou cantasse para eu dormir.

 

...O tempo foi passando e minha mãe aproveitava suas “férias,” até que retorna levando-me para São Paulo, donde começa meu perambular de casa em casa como um livro emprestado que passa de mão em mão ou é descartado, segundo as conveniências de cada um..
Sempre fui boa menina, obedecendo ao que me era ensinado ou mandado, procurando fazer o melhor que a idade permitia. Perto dos oito anos conheci a escolaridade. Na época, fui recebida por um casal descendente de alemães, servindo como babá de uma garotinha. Naquela família conheci a bondade, pois fui tratada com carinho. E o "Destino" persistia em não dar-me trégua!

 

... levada à chácara da madrasta da minha mãe, conheci por primeira vez, a violência contra terceiros! Meu coração oprimiu-se ao ver aquela senhora atirar a uma fossa cachorrinhas recém nascidas, por serem fêmeas. Corri para um cantinho da cozinha onde dormia, e chorei em silêncio.

 

... sendo que, nunca indaguei à minha mãe ou parentescos, sobre a história do meu nascimento que obviamente, nutria curiosidade. Respeitando seu silêncio, menos eu perguntaria como tampouco, sobre o dinheiro que por lei me foi garantido e para ela, entregue.

 

... aos 10 anos, finalmente levou-me a viver com ela, pois se havia amasiado. Para mim, foi a “glória,” por acreditar que realizaria o grande sonho que era imitar as colegas e dizer: Meu pai. Perguntei então: “Mamãe, posso chamar seu marido de pai?”
A resposta foi um virar de costas. Assim continuei meu caminhar, com mais um sonho desvanecido.

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Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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