Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

A IMPOSIÇÃO.


Pouco tempo depois, Darcilio perde a renovação da concessão do bar que mantinha no club, assim como o trabalho de secretário. Os novos moradores melhoravam a situação financeira e com meu ordenado, sobrevivíamos. Minha alegria de então consistia em cantar, o que se daria naquela noite fora da cidade. Repentinamente e sob intimidação, meu companheiro obriga-me a escolher entre ele e a orquestra. Em lágrimas diante do inesperado, apelo para sua compreensão, pedindo que não me obrigasse a decidir daquela maneira, e entendesse que eu não poderia faltar para quem contava comigo. Sua compreensão ficou em juntar as roupas e partir.

O entardecer trouxe o ônibus e músicos. Explico a situação para o maestro que pasmo, me olha e nada diz. Hesito por instantes sobre que atitude tomar, mas o dever de não falhar aos que em mim confiam ditou alto e segui com a orquestra. Durante o percurso não deixava de pensar em Darcilio, na dúvida do que fazer quando regressasse. O Amor por ele gritou forte e dei-lhe preferência.

Não foi fácil desistir do cantar, e esperava que meu marido voltasse. Alguns dias passados e comprovando que eu optara pelo mais propalado dos sentimentos, regressou. Rindo, (onde estaria a graça?) contou-me que estivera oculto no matagal em frente, espiando os acontecimentos. Fizemos as pazes. Deveria maldizer aquele momento, mas nunca o fiz, uma vez que jamais negarei ao Amor. Amor e amores tão cantados, mas dificilmente valorizados, compreendidos e retribuídos!

Darcilio conseguira novamente os direitos sobre o bar do club. Nossa situação financeira melhorou, permitindo que alugássemos uma casa que dava fundos para aquele quartinho chuvoso.

Cidade “menina,” abrigava na maioria, casas de madeira. Algumas requintadas nas construções, enquanto que a “nossa” era velhinha e primava pela humildade. Mas, eu estava contente, pois finalmente tínhamos um teto seguro e a merecida privacidade. Teto seguro? Goteiras não faltavam. Arruma daqui e conserta de lá, a velha casinha “rejuvenesceu.”

Por outro lado, Xereta, (minha cachorrinha) novamente “dera no pé.” Por mais que a procurei não consegui encontrá-la. Eu chorava e Darcilio prometia conseguir-me outra, ao que eu contestava não ser o mesmo. Com seu carinho e dedicação, foi que lhe entreguei meu Amor.

“Chegar ao final da vida sem haver amado, é o mesmo que não ter vivido.” Gostei da frase e plagiei.

Amar, é a mais gratificante das emoções! Oferta ânimo para deslocar pedras e atravessar caminhos espinhosos. Amar alimenta a alma, e trás à tona o vibrar de sensações desconhecidas que invitam o permanente desejo de cantar e bailar. O pensamento gira em adivinhar os anseios do ser Amado, rodeá-lo de carinhos e aguardá-lo com o coração batendo forte, braços estendidos, sorriso franco e a melhor das comidinhas. Enfim, são milhares as demonstrações que o Amor tem capacidade de manar. Assim era como eu sentia e esperava a chegada de Darcilio.

... Nas noites de bailes eu trabalhava ao lado de meu marido. Permanecia no caixa distribuindo fichas aos garçons e atendendo aos associados que não eram poucos.
Será preciso dizer o que sentia ao não estar cantando com a orquestra? Será preciso explanar sobre quantas vezes sufoquei as lágrimas, ao ouvir as conhecidas melodias? Será preciso? Não creio. Ombreada a ele, também no trabalho, conseguimos juntar um “pé-de-meia.”

... Sete anos decorridos da união, eu desfrutava do que presumia felicidade, espalhando aos quatro ventos, que desejava para minha filha um marido igual ao meu. Desde o início, na angústia de que a garotinha crescesse com a falta de poder sentir e pronunciar a expressão pai teve total liberdade de assim nomeá-lo, o que concordou.

No decorrer do tempo, Darcilio mudou seu comportamento. De bondoso, tornou-se mau, irritante e irritável. Nada lhe caía bem. Desprezava minhas comidas sem qualquer justificativa, e ficava dias sem trocar uma só palavra comigo. Por mais que o agradasse e mostrasse ensejos de conversar, me cansei e resolvi “emudecer.” Foram 30 dias de total mutismo das nossas partes.

Da porta eu espiava sua chegada e via que lá da esquina se aproximava assoviando alegremente. Adentrando a casa, seu rosto se transformava e passava com ares de grande senhor em conserva com limão. Cada vez, menos o entendia. Amante fiel da casmurrice agarrou-se à decisão de que eu deveria ir ao colégio às escondidas e vigiar minha filha. Relutei ao pensar na situação vexatória, mas ele emperrara apoiado em que a menina crescia, algum rapazinho poderia esperá-la... e despejava disparates. Tamanha a pressão sofrida, que fui! Ao flagrar-me no que fora obrigada, senti-me envergonhada. Quando retornei, disse-lhe haver-me sentido péssima ante tal procedimento. Fez-se de surdo. Outras vezes fui pressionada ao mesmo, até que por primeira vez, me rebelei: “Não vou mais! Se quiser, vá você!” Para minha surpresa, calou, e respirei aliviada.

 

 

Mesmo que a narrativa do capítulo a seguir seja ainda das mais vexatórias, não poderei excluí-la, por fazer parte da minha vida.

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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