Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

O ARGENTINO.
Um paranormal.

 

Altamira.
Pela tarde estou repousando, quando escuto uma voz de sotaque diferente. Dois ou três dias depois, meu marido me apresenta um senhor. Seu nome? Roberto. Vejo um bonito homem. Alto, moreno claro, olhos verdes e pele rosada. Nacionalidade, argentino. Sua maneira de caminhar denotava ser pessoa dinâmica e decidida. Fico zanzando pelo hotel e torno ao quarto. Ao entardecer, estou como de costume sentada frente ao hotel à espera do escurecer para admirar o céu e suas fulgurantes estrelas. Assim me encontro, quando ele surge e me saúda. Trocamos algumas palavras e despede-se. Aquele homem nada dissera ao meu coração. O único que chamou minha atenção foi sua maneira educada, a qual não estava acostumada.

Minha estada naquele povoado era recente. Ficando uns dias mais, a cada entardecer sentava-me no mesmo lugarzinho, desfrutando do ar fresco e as belezas da abóbada celestial. Aquele senhor passou a fazer o mesmo. Conversávamos uns minutinhos e desaparecia pelas ruas. Tendo percebido que sou mais de ouvir que falar, aos poucos me colocava a par da sua vida. Despia uma tristeza palpável no cansaço de perambular de aventuras em aventuras, na busca incessante de poder encontrar quem retribuísse sua capacidade de bem-querer. A princípio pareceu-me uma “cantada” que logo se desvaneceu. Quanto a mim, sempre buscava e não perdia a oportunidade de mencionar meus sentimentos para com meu marido. Outras tardes e novas confidências amargas. As minhas... eu calava.

Em nossos colóquios discorríamos também sobre compositores de obras clássicas, sinfonias, noturnos, prelúdios e demais, que ele cantarolava, mostrando-se profundo conhecedor.

Meu marido vez por outra passava cumprimentando-nos amavelmente. Admito haver estranhado que em nenhum momento perguntasse sobre o que conversávamos. Quem não pergunta expõe desinteresse e silenciei. Um dia e repentinamente, Darcilio me diz que o estrangeiro se apaixonaria por mim. Respondo que o problema não seria meu, uma vez que deixara bastante claro o quanto eu Amava meu marido. Não dei importância ao alerta, por descrer da possibilidade.

Estamos -o argentino e eu- novamente dialogando, quando inopinável e sem motivos, afirma que casaria comigo! Ah! Por que me saía com tamanho disparate? Como se atrevera? Assim refletindo e fazendo que percebesse meu desgosto, deixo-o sem uma palavra e vou ao encontro de Darcilio a quem comento o ocorrido, pedindo que expulse de lá, aquele safado. Como resposta, ouvi a exatas palavras: “Calma. Não fique nervosa. Ele traz outros hóspedes e rende um bom dinheiro para o hotel.” Pasma, e não encontrando explicações para tal atitude de quem esperava reação diferente, me retiro em interrogantes confusas e silenciosas.

Passei a evitar o argentino. Quando nos encontrávamos pelo corredor, me cumprimentava, enquanto que eu o ignorava em evidente demonstração de desagrado para com sua pessoa.

Minha insistência era permanente nos pedidos a Darcilio, de que ele regressasse para casa, argumentando inclusive que ainda vivêssemos 100 anos, não conseguiríamos gastar o dinheiro que “ele” reunira. Por mais que chorasse reclamando sua presença, aquele marido não escutava, contudo, em dado momento e com arrogância, prenuncia: “Aqui sou o ‘Senhor’ Darcilio e lá, sou um a mais pela rua.”

Retruco de imediato: “Ah! É assim? Você pretende ficar ‘enterrado’ aqui, enquanto que minha filha e eu... pois fique sabendo...” e o fiz partícipe de algo que poderia ocorrer para comigo. Sorrindo amavelmente, contesta com palavras indescritíveis. Aquele foi o momento culminante que me fez definir que estivera convivendo durante 20 anos, com um comprovado amoral.

Vou para o quarto abafando o sentimento de humilhação. Chorando, atiro-me sobre a cama em estado emocional, indescritível. Não... não poderia continuar com ele. Os limites foram ultrapassados. Desorientada, ocorreu-me a frase do argentino. Interrompo as lágrimas e decido arriscar uma idéia.

Darcilio entra e sai umas duas vezes do quarto, aparentando inexistir qualquer preocupação, na certeza de que eu seria incapaz de alguma atitude rebelde. Resoluta, espero a chegada da tarde e vou para o “meu” lugarzinho lá fora. Vejo o estrangeiro que chega das obras que dirigia. Cumprimentos de praxe, e entra. Aguardo uns minutinhos e dirijo-me até a porta do seu quarto. Bato. Ele atende. Com audácia, pergunto se realmente desejava casar comigo. Surpreso, abre os olhos em espanto, mas sem titubeios, confirma. Digo que irei esperá-lo frente ao hotel, para conversarmos. Ele não demora a chegar. Daquela vez, eu colocara propositalmente uma cadeira junto a minha. Queria chamar a atenção do meu marido, na esperança de que me procurasse para se redimir. Mas, ele passava assoviando, nos saudava sorridente e seguia na dele. Ah! Mas ali, eu também tinha uma!

Sem entrar em pormenores, digo ao estrangeiro que deixaria meu marido. Percebo que esboça um sutil contentamento. Combino que nos encontraríamos na próxima segunda-feira na capital (Belém), para onde eu viajaria ao dia seguinte. E tristemente, meditava: Outra vez? Será possível que outra vez vou me entregar para alguém, sem Amar? Assim eu pensava, mas guardava uma latente esperança de que meu marido retrocedesse no que me impelia fazer.
Darcilio chega para dormir e asseguro-lhe que iria deixá-lo, partindo ao dia seguinte, só que, não sozinha. Desacreditou. Amanhece e dou início à arrumação da pequena bagagem. Ao comprovar que eu viajaria, compra as passagens e me entrega uma pequena quantia. Ao horário do vôo, acompanha-me ao aeroporto como se tudo estivesse normal. Antes de embarcar digo-lhe onde ficaria, e prometo que; se não fosse buscar-me até a próxima segunda-feira, eu o deixaria definitivamente. Ele disfarça e volta a sorrir, amparado na certeza de que eu não o faria. Estou por embarcar e aventuro um teste indecoroso, perguntando-lhe se me receberia de volta, caso eu não me apaixonasse pelo outro. Para maior estupefação, escuto: “Claro! Claro.” Não dá para enunciar o que realmente senti, mas sim, ter sido dentre outras, mais uma das repugnantes situações vividas com ele.

O pequeno avião pousa, trazendo novos passageiros. Lacrimejante, me despeço. Muito tranqüilo Darcilio beija-me o rosto que ofereci, como se nada anormal estivesse acontecendo.

Na capital, sou hospedada na casa de uma jovem senhora casada, a quem eu avisara da viajem e convidou-me a ficar com ela. Conhecemo-nos no povoado, onde tivemos bons momentos de conversações. Não houve tempo de ampliarmos aquela amizade, pois minhas idas àquele lugarejo, sempre foram esporádicas e de breve estada.

Minha anfitriã recebe-me com um grande sorriso e forte abraço. O sorriso desaparece quando em seus braços caio em prantos. Narro os acontecimentos com detalhes. Boquiaberta, retruca: “Quem diria! Ele parecia tão correto!”

Naquela mesma tarde escrevo uma longa carta para meu marido, e praticamente supliquei que viesse buscar-me, pois não queria prosseguir ao que me dispusera. Ele a recebeu quase que instantaneamente, contudo... não apareceu!

 

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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