Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

Domingo.
Conhecendo os horários das chegadas dos vôos de Altamira para a capital, a cada um, rezava fortemente, expectante de bons resultados. Porém... nada!

Poucas horas depois soam batidas na porta. Minha amiga e eu nos entreolhamos e disparei abrir. Diante de mim e para maior decepção, estava o argentino. Minha agradável anfitriã que já o conhecia, deu-lhe passagem. Sentamos na sala e estou apática a tudo, enquanto que eles trocavam palavras sobre o tempo e demais comuns. O argentino conversava, mas não tirava seus olhos de mim. Aos poucos fui participando da prosa, ainda confiante de que restava mais um dia de esperança.

A noite chega trazendo o momento do retiro para dormir. Roberto pergunta se tenho sono. Respondo que não mesmo porque, com ele ali, me restava negar. Convida-me então para sairmos a caminhar. Agradeço, apontando a madrugada e incentivando-o a que fosse repousar. Lança-me seu olhar, levanta e me estende a mão, crente que iríamos juntos. Reforço o que deixara dito, recordando-o que até segunda-feira... a decepção estampou-se em seu rosto, mas concordou e pediu à dona da casa, poder retornar ao dia seguinte. Ela consente.

 

Segunda-feira.
Agarrada às rezas, contava as horas para a chegada do avião, e lá vem o estrangeiro com o portunhol, seu sorriso aberto, a fragrância de colônia e todos os todos que para mim, já extravasavam! Penso: Será possível que esse homem não desconfia? Acreditará que irei a um hotel com ele? Está muito enganado. Mas quem se enganou fui eu! O dia se esvaiu trazendo a noite, e Darcilio? Continuou de marcha ré.

 

E vou em frente.
Muitas vezes ouvi que fulanos e beltranos editaram suas memórias, sem nunca imaginar que eu viesse a fazê-lo e menos ainda, não prazerosamente ou prevendo lucros financeiros, mas, pela necessidade de vários fatores. Citarei alguns:
Primeiro: Um dever em honra à verdade que deve ser conhecida de uma vez por todas, não permanecendo oculta perante milhares de incautos que acompanharam como crédulos, as calúnias, infâmias, agravos e todo o horrendo preparado e escandalosamente publicado contra minha pessoa, atingindo também aos meus entes queridos.
Segundo: Que na cidade de Londrina onde há 58 anos mantenho residência fixa, os que me desconheciam naquele então, facilmente detectavam ser eu, a mesma em incontáveis fotos -inclusive distorcidas- publicadas juntamente as maledicências.
Terceiro: O trânsito frente a minha residência era constante. Filmagens, fotografias e dedos assinaladores que afirmavam ser ela, abrigo de criminosos. Também não faltaram os disformes de almas e mentes, que se precipitaram como julgadores!

Sucede que; não de hoje, passaram a engolir em seco e tartamudear diante da justiça que se vem fazendo visível em meu favor. Outros estão em fuga descarada para impedir serem citados e responderem perante a lei, suas infâmias. E pergunto: Como andam suas caras, uma vez que as falcatruas foram desmontadas? Desengonçadas, como tenho visto umas quantas, ao passo que prossigo de cabeça erguida e não me vergando a nada. Tampouco, em tempo algum me ocultei dos cochichos, olhares condenatórios, discriminações e sutis provocações de elementos que se acreditaram e acreditam superiores em seus míseros e emporcalhados mundanismos.

 

Retomando a narrativa interrompida.
A madrugada distendia braços acolhedores aos desejosos de repousar. As estrelas pareciam competir em seus faiscares e cores, enquanto a lua exibia um grande e claro prateado. Os pássaros no frescor da noite, deixavam seus farfalhos e gorjeios, indo adormecer.

Em um relance pela janela, observo as ruas emudecidas dos ruidosos carros e pessoas que rumavam aos seus afazeres, ignorantes do destino que as espera no dia-a-dia. Nada eu ouvia que não fossem as batidas fortes e aceleradas do meu sentir aflito e desiludido.

Meus pensamentos giravam e eu fraquejava ante a situação que estava prestes, mas não queria realizar. Vou à busca daquela amiga que opina: “Vá! Vá sem medo. Darcilio não te merece.”

Tais palavras tombaram com minha incerteza e saí, com a firmeza de que seria a única maneira de obrigar-me a não voltar para quem preferira o dinheiro.

Roberto estendeu-me seu braço no qual apoiei o meu, e rumamos para um hotel. Ele procurava conversar para deixar-me à vontade, enquanto que me sentia envergonhada e relembrava uma quase idêntica situação passada.

Não recordo se dois ou três dias ficamos juntos, e preveni-o de que tratasse de se acomodar em outro lugar, pois Darcilio, certamente lhe pediria.

... iria ao meu encontro, tão logo terminasse seu trabalho em Altamira.

... eu havia a duras penas e sob circunstâncias alheias que prefiro não mencionar, conseguido que o amante do dinheiro me permitisse adquirir uma casa de material. Era reformada mas me caía bem. Em lá chegando, chamo minha filha e sem maiores explicações, digo não estar pedindo seu consentimento e sim, comunicando que deixara Darcilio e me uniria a outro. Não necessitando indagar os motivos, nada argumentou.

... Roberto telefona e conta que fora recebido amavelmente pelo “senhor.” Não transcorrem muitos dias e avisa-me da sua chegada.

... minha filha já se instalara em casa, o que me deixou estreme felicidade. Ele a tratava com respeito e igual atenção à que me dedicava. Vivíamos em harmonia, embora eu não o Amasse.

... Roberto pedira demissão da empresa para a qual trabalhava e trouxera determinada soma que nos assegurava um viver tranqüilo, ainda que por uns tempos.

... aqui, advogados conhecidos de longos anos, eram constantes em aconselhar-me a não deixar para trás substanciosa quantia, visto que; por lei e direito me pertenciam após 20 anos de união com Darcilio, quem eu contribuíra para a reserva financeira. Não me interessei, por haver ponderado que o dinheiro passou a ser seu único interesse. Assim ficou dito, feito e demonstrado.

... nossas economias minguavam e Roberto buscava emprego (engenharia mecânica).

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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