Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

O TURISMO.

 

Aos leitores solicito rigorosa atenção às palavras em negrito, pois será precípuo na seqüência dos acontecimentos a serem narrados.

Um pequeno grupo de conhecidos, após a leitura do livro onde aproveito descrever entusiasticamente sobre a exuberância do firmamento, peixes, matas e rios da transamazônica, propõe-me um passeio turístico por aquelas paragens. Acedi e viajamos, levando também meu filhinho. Chegamos à tardezinha.

Ao cair da noite fui ao encontro de Darcilio, pois em tempo algum que por Altamira eu passasse, jamais evitaria falar com ele por não lhe guardar rancor ou inimizade.

Frase oportuna que ouvi, e acresço entre traços: “Nenhum homem -ou quem seja- me fará descer tão baixo, a ponto de odiá-lo.”

Também, extremamente chamativa seria minha presença e a de visitantes, uma vez que todo o povoado saberia, salvo fôssemos invisíveis. Trocamos algumas palavras. Mostrando-se gentil ofereceu-nos seu carro que aceitamos e pouco foi utilizado, uma vez que Altamira não oferecia distância para passeios.

Ao dia seguinte mantive um diálogo (frente aos demais que me acompanhavam) com pessoa idônea e originária de lá, que comentou abertamente e transcrevo pequenos e exatos trechos:

“Seu (não meu) Darcilio nunca mais foi o que ele era quando a senhora estava aqui.”

“Ele só pagava direito os empregados quando a senhora estava aqui.”

“Um dia ele levou uma surra do homem do caminhão que queria receber o dinheiro que seu Darcilio não queria pagar.”

“Todo mundo sabe que ele ainda espera que a senhora volte pra ele.”

Por outro lado, fui procurada por um trabalhador de origem humilde, que em desespero mostrou-me uns documentos e pedia que eu intercedesse a seu favor, uma vez que Darcilio tempos atrás lhe havia concedido um empréstimo de Cr$100,00 (moeda da época), recebendo como garantia, um cheque. Darcilio combinara aguardar ser retirado no tempo marcado, indo fazê-lo com antecipação.

Não havendo fundos, recorreu à lei que a executou, desapropriando a família da casa que possuía e entregando-a para Darcilio.

Lastimosa, expliquei nada poder fazer, uma vez que estávamos definitivamente separados.

Junto aos visitantes, no dia seguinte percorremos o rio Xingu, onde alguns dos que comigo viajaram, se deliciaram num refrescante banho. Ao segundo dia, não suportando o calor e insetos que pululavam, regressamos. Na realidade, não havia mais o que apreciar.

 

O DISSOCIO.

 

Finais de 1986.
Devido a divergências entre eu e Querido, as Individualidades concordaram com a separação a que me aferrara. Calo os motivos, deixando nítido não haver sido por qualquer agravo da minha parte.

Havíamos adquirido uma bonita casa num bairro nobre da cidade. Ele ajudou na mudança, partindo depois para seu país.

O irremediável afastamento deu-se entre choros, abraços, muita angústia e fazia relembrar um passado que o presente mostrava conhecida repetição, mas diversificável nas razões. Querido se foi entrecortando as lágrimas e deixando atrás meu desespero. Mas, o que não tem remédio, remediado está.

A nova residência, além de meu filhinho, acolhia também duas moças que eu considerava filhas. Para não usar das minhas economias, uma delas foi trabalhar fora enquanto que a outra, boa costureira, confeccionava roupas sob medida, conquistando freguesas. Quando possível eu ajudava nas costuras e ela a mim, nos afazeres domésticos. Querido e eu, vez por outra nos falávamos por telefone.

Uma noite, cerca das 23h estamos costurando e soa o telefone. Preocupadas pelo tardio daquele chamado, vou atender e escuto a voz clara de homem, que ameaçador diz: “Estou indo aí com uma metralhadora para te matar.” Em pânico telefono para Querido e conto por alto o acontecido, dizendo que partiria de carro imediatamente para lá, acompanhada de uma das moças. Peço que venha encontrar-nos pelo caminho, ficando assim combinado. Eu tinha uma leve idéia do trajeto. Aprendera a dirigir, mas não o fazia. O temor era grande e o tempo curto para se perder buscando mapas. A única tranqüilidade naqueles momentos, foi que a ameaça era dirigida unicamente a mim. E viajamos atravessando a fronteira e enfrentando fortes chuvas, ventos, raios e trovoadas, onde mal conseguíamos divisar as estradas. Eu tremia como vara verde, mas agarrada ao Pai e ao volante, seguia confiante. Erramos o caminho não poucas vezes, e de cá para lá, avistamos ao longe um carro que prendia os faróis como aviso de alerta e reconhecimento.

... conto por alto o acontecido e prosseguimos a viagem até Buenos Aires.

... Voltar a viver com ele, eu não voltaria. Querido então, se colocou para estar presente, sempre, aonde e quando dele, eu precisasse. Despedimo-nos amigavelmente.

... Nossas vidas transcorriam ocupadas com os afazeres, quando resolvi tornar a Buenos Aires para visitar meus amigos. Todos estavam cientes dos reais motivos da separação e optaram ficar ao meu lado.

Com os cursos ministrados, outras mentes abertas se aproximaram.

Nas vezes em que estive naquele país após o rompimento da união, fui convidada a transmitir os Conhecimentos, o que fiz em palestras e entrevistas a alguns dos jornais e televisões.

Dentre os novos participantes estava um jovem que eu vira presenciando uma das ministrada por Querido e, que freqüentava vez por outra as reuniões feitas pelo grupo que crescia lento, porém vicejante. O jovem já estivera no Brasil em visita a mim, junto aos demais amigos.

... Informo que regressaria à Londrina. Ao amanhecer vejo valises desconhecidas, que me diz a dona da casa, pertencer ao jovem que optara me acompanhar. Ele chega apressado e lhe afirmo ser desnecessário interromper seu emprego. Responde que estava de férias e poderia ser útil. Vendo outros olhos verdes que brilhavam na expectativa do consentimento, sorri e concordei.

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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