Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

A MORTE APARENTE.

 

Estamos recostados sobre a cama assistindo televisão e percebo que Teruggi então adormecido, entra em grande agitação e lamentos. Acreditando tratar-se de um pesadelo e se o despertasse de súbito o levaria a um sobressalto, tento acordá-lo chamando-o várias vezes e tocando seu braço com suavidade. Finalmente consigo que volte a si.
Transpirado, relata haver sentido pânico, pois do alto conseguia ver-me e a todo o ambiente. Sentindo-se fora da matéria e pressentindo a morte, detalha haver gritado inúmeras vezes por mim a quem não queria deixar, não entendendo por que não era ouvido em seus nítidos apelos!
A explicação de fatos semelhantes está ampliada no livro primeiro.

 

GUARATUBA.

 

Paraná.
Seguíamos nossas vidas e outros amigos se anexavam. O grupinho deixara o diminutivo, passando a ser um conjunto.
Admiradores que são deste país têm à idéia de um giro pelas praias, ficando escolhida a de Guaratuba pela transparência das águas e areias brancas que eu vira através de um documentário televisivo.
Tirando vantagem de que o período não era relativo às férias, ficou combinado que iríamos para lá. No propósito de baratear os custos, foram alugadas modestas casas e apartamentos, onde ficaram em separado, rapazes e moças, enquanto que, Teruggi, eu e meu filho nos hospedamos em um pequeno, porém acolhedor hotel frente à praia.
Passamos alguns dias de verdadeiro festival compartilhado e entusiásticos gritos de alegria ao se banharem nas mornas águas que para os argentinos eram desconhecidas, dado a que no país que os originou, o mar é demasiadamente frio.
Entre jogos, comidas típicas, músicas e demais diversões sadias, retornamos à nossa casa atendendo compromissos, mas prometendo voltar em breve, pois outro grupo se preparava para vir. Os que mantinham possibilidades financeiras permaneceram para recebê-los.

 

Observações.
Rostos foram nublados por não pertencerem à Associação: L.U.S. (Lineamiento Universal Superior)

 

Sanados os compromissos retornamos a Guaratuba.
Do Brasil, dentre as milhares de missivas recebidas, estava uma, cujo remetente dizia haver obtido o livro exposto em uma das bancas de São Paulo e solicitava maiores informações. Igualmente a todas, respondi, ficando a par de que se tratava de um jovem advogado. Passo por alto algumas ocorrências desnecessárias, aclarando, contudo, que em determinada oportunidade que viajamos a São Paulo, ficou estabelecido nos encontrarmos. Assim foi que nos conhecemos.
Estamos jogando volley na praia, quando Teruggi aparece acompanhado do moço que passava por lá. Apresentado aos amigos é convidado a participar do jogo. Jovem e bem disposto, não se faz de rogado e aceita, inclusive, quando incitado a permanecer alguns dias a mais do pretendido.
Meus amigos aos que me acostumara a chamar de filhos, automaticamente modificaram o tratamento de señora, para “mamá” (leia-se mãmã). O jovem nada entendia e tampouco bisbilhotou.
Pela manhã deparo com uma funcionária do hotel, que chorosa, limpava o salão de refeições. Ao ver-me passar, pergunta se eu sabia ler a sorte, fato comum aqui no Brasil. Respondi que não, indagando no que poderia ajudá-la. Conta que seu filho de sete ou oito anos, -não recordo exatamente a idade, mas sim que, ANTERIOR à nossa chegada- havia desaparecido.
Ante minha indagação sobre a possibilidade de haver-se afogado no mar, nega e complementa: “Foi criado aqui e nada muito bem.”
Pergunto o nome e características do menino, obviamente, POR JAMAIS HAVÊ-LO VISTO! Responde chamar-se Leandro e ser loirinho. Tranqüilizo-a com afeto e dando-lhe esperanças, digo que comunicaria a meus amigos e qualquer notícia que obtivéssemos, ela seria avisada de imediato. Esta foi a exata conversa que mantivemos. Disposta a ajudá-la, me afasto, pensativa em como prestar auxílio àquela angustiada mãe.
Os comentários corriam de que o menino fora visto por última vez assistindo a um show na praia e, levado dali por um homem, que descreviam. Outros, afirmavam havê-lo divisado na garupa de uma bicicleta dirigida por um tipo. Assim, naquele falatório, as possibilidades variavam.

Não raras vezes notamos homens parados nas esquinas ou proximidades, nos observando. Em nada nos preocupou dado a que conformávamos um grupo cuja maioria era de estrangeiros, o que fora de época poderia ser chamativo. O que jamais imaginamos, foi que na calada das perversidades, polutos nos espreitavam com premeditados embustes.

Chegado o momento de retornarmos ao lar, deixamos ajustado que brevemente iríamos à Argentina para reunir-nos aos que não participaram e contar acerca do que havíamos vivido.
Em princípios de julho estamos nos preparando para viajar, quando me horrorizo ao ver pela televisão um homem confessando sobre um crime praticado por ele e outros, num ritual macabro, no qual sacrificaram um menino. Onde? Em Guaratuba.
Atônita, mal conseguia acreditar no que ouvia! Não suportando escutar até o final, fui ao encontro de Teruggi e meus “filhos” que estavam presentes, para comentar sobre aquele fato sinistro. Voltei meu pensamento para aquela pobre mãe, acreditando haver sido seu filhinho, a indefesa vítima. Bem depois, soubemos tratar-se de outro garotinho.
A multimídia se ocupava do assunto e divulgação da barbárie, mais ainda, por serem os demais acusados, a esposa, a filha do prefeito da época e parece-me que outros mais. Na seqüência das difusões sensacionalistas, o motivo que os levaram a tamanha hediondez, fora na finalidade de obter para o prefeito, um poder de maior escala. Os implicados na denúncia já estavam presos e o prefeito, foragido. Enquanto corriam notícias a respeito, viajamos meu marido, eu e “nosso” filho, para Argentina, ficando em casa meus “familiares” e um terceiro para fazer-lhes companhia. Em lá chegando menciono o assistido pela televisão. A estupefação foi geral!

 

Nota.
Na tentativa de suavizar minhas dolorosas lembranças, possivelmente em alguns dos capítulos eu passe a dissertar como expectadora de uma película de terror!

 

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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