Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02


CONCORDIA.
Argentina.

 

O trajeto foi um transtorno! A polícia de Concordia nos pára e leva a uma repartição (Comisaría), onde reviraram nossas bagagens em minucioso exame. Requisitaram o vídeo que foi examinado enquanto permanecíamos em uma das salas.

Trataram-nos com respeito e cuidaram da proteção, tanto que ao chegarem repórteres, um oficial graduado, segurando-me pela mão, atravessa um pátio que havia mandado deixar às escuras e coloca-me em lugar seguro, para evitar que eu fosse fotografada. Horas após, educadamente nos conduziram à saída. A todos e sem exceção, estendemos nossa gratidão.

 

FRONTEIRA DE URUGUAIANA.

 

Quando lá chegamos, um possivelmente dormido que se ocupava dos trâmites, avisa a polícia Federal que ali estávamos. Como estremunhado não pensa, acreditou que ousávamos passar sem o devido salvo-conduto. Depauperada, estou ao lado da minha “filha,” sentada à porta do veículo, enquanto Teruggi entregava nossa documentação. Chovia a cântaros e o frio era intenso. O perito fora trocar suas roupas molhadas, quando a porta da camioneta é aberta abruptamente e: “Quem é Valentina?”

Percebam que não me identificava. Sucedeu que a princípio do rumoroso caso, publicavam que Valentina de Andrade era gorda, alta, loira e falava com sotaque estrangeiro. Imaginem a semelhança!

Colocando o braço em proteção à “filha” (quem em outros casos não mais asparei a palavra) digo ser eu, e desço. O que vejo? Mi Amor algemado a uma grande porta, tendo policiais munidos de armas pesadas apontando para ele, e a minha espera. Fomos maniatados juntos, com os braços abertos, e postura de crucificação. Perdendo as poucas forças que me restavam, disse baixinho ao que estava a minha frente: “Sinto-me mal.”

Não esquecerei a cara nem as palavras daquele policial, que sem qualquer prova ou direito, acusou: “Quando você matou as criancinhas não se sentiu mal.” Não suportando aquele novo opróbrio, consegui soltar um grito apelativo ao doutor perito, que rapidamente atendeu, ainda arrumando suas roupas. Percebi que ante o título honorífico houve um segundo de vacilação entre eles. O perito em voz cortante mandou que parassem, colocando a mostra o salvo-conduto que eu trazia. Ouvi perfeitamente quando um, pergunta ao colega: “Por que você não me disse que ela tinha isso?” Examinam o documento e a contragosto retirando as algemas, se afastaram.

Estamos seguindo caminho, e a poucos metros Teruggi faz chiar os pneus da caminhoneta dando marcha-ré em alta velocidade. Aponta um lugar, onde vemos um grupo encapuzado, armado e escondido como criminosos na noite. Estariam à espera para assassinar-nos? Não! A polícia não existe para julgar, condenar e menos, assassinar inocentes ou culpados.

O perito diz ao encarregado sonolento que chame -salvo engano- ao então, chefe da Federal, que de imediato enviou seus comandados que nos levaram em segurança à repartição. Os encapuzados naquele ínterim haviam desaparecido.

Em todo aquele burburinho e tormentas, necessitando que alguém me descrevesse fisicamente, um casal aos que auxiliei quando de mim precisaram e acreditei amigos, foi procurado e; negaram fazê-lo.

Amigos? Bah!

Aproveito-me do adjetivo na finalidade de pairar uns momentos nas tristes lembranças e, dedicar à Ana, seu marido e aos mais que se identificarem:

 

FALSO AMIGO.
Manifestação cósmica.

Adaptada.

Eu caminhava de um lado para outro quando alguém perguntou:

“Por que caminhas tanto?”

“Estou pensando!”

“E para pensar precisas desgastar tuas forças? Por que não sentas, tomas um café e fumas um cigarro? Assim, pensarás mais tranquilamente.”

“Prefiro caminhar. Desta forma não me permito um café, e o cigarro aqui está. É aquele amigo silencioso que me faz sentir acompanhado. Se todos faltarem, ele não!”

O tempo passou, fiquei sem dinheiro e...

Como analítico que sou, olhando para o cinzeiro onde uma ponta ali estava e conjeturei:

Não passas de um miserável aproveitador como tantos que conheço. Vejo que através do dinheiro posso te comprar e assim, te obrigo a que compartas minhas situações. Que amigo és? Eu sim gostava de ti e deixei-me levar pela ilusão de que a sincera amizade era mútua.

Esvaziei o cinzeiro e nunca mais voltei a fumar.



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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