Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

O COLÉGIO DE FREIRAS.

 

Com tantas andanças, fui matriculada num colégio de freiras, permanecendo no primário. Aparentemente, tudo corria bem. Quando chegavam os padres, Valentina era convocada para levar-lhes quitutes antecipadamente preparados pelas freiras. Ali me sentia querida. Quanta ingenuidade! Eu, era simplesmente usada como exemplo de boa aluna e uniforme impecável, que eu mesma lavava e passava. Aquele fato era-me desconhecido, até que principiei a ter noção de que elas não eram angelicais como eu acreditava. Foi assim que percebi: Um dia, sou rudemente admoestada diante das colegas de classe, e acusada de haver escrito meu nome na parede de um dos banheiros. Não fico na suspeita, pois tinha certeza de quem o fez. Dou-lhe um rápido olhar na expectativa de que assumisse. Vendo que nada acontecia, calo. Sob castigo, a freira enviou-me baixo a uma escada sem direito ao lanche. Lugar conhecido como tal, as alunas passavam para o recreio lançando-me sorrisinhos, olhares furtivos e comentários baixinhos. Em nenhum momento a “irmã” indagou se fora eu quem escrevera. Simplesmente fui castigada, humilhada e “sentenciada,” sem direito à defesa. Estaria o "Destino" preparando-me para algo pior, mas semelhante em algumas comparações?

... Meu real prazer residia nos estudos. Porém, algo me incomodava: Não havia professora, aluna, padres ou conhecidos que não perguntassem em leves sorrisos: “Você é valente mesmo ou é só no nome?” Sem saber o que responder, entreabria um sorriso e alisava minha roupa.

... Aproximadamente aos onze anos levaram-me ao cinema, e me descubro dançando em pensamentos, como vira fazer a bailarina clássica, que parecia levitar na suavidade dos passos e movimentos. Vim bailando naquele sonho e com ele, adormeci. Passados alguns dias tomei coragem e pedi que me deixassem aprender ballet, pois tinha certeza de não fracassar.

Para meu receoso mas confiante apelo, fui “apedrejada” com a frase: “Bailarina é o mesmo que prostituta. Se você quer isso, vá saindo e não volte nunca mais.” Restou-me ao calar da noite enquanto dormiam tentar ficar na ponta dos pés. Com esforços contínuos, consegui sustentar-me nos dedos maiores, e orquestrando mentalmente suaves melodias, dançava, buscando representar os passos, leveza e gestos que tanto me encantaram. Com o passar dos anos, ganhei de meus amigos um par de lindos sapatinhos apropriados, e realizei meu sonho dourado, que ficou somente nos sonhos de uma romântica menina, que perdurou até a maioridade, em bailar às escondidas.

Valentina danzando



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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