Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

Continuando com a narrativa:

 

Não decorrem muitos dias e Maria Hercilia telefona. Evidentemente, eu lembrava constantemente da filha que Amava, mas, guardava profundo pesar pela omissão da presença tão desejada. Ao inquiri-la do motivo da inércia, as desculpas não me satisfizeram. Mesmo assim, tratei de compreender e pouco argumentei.

 

ALTAMIRA.
Pará.

Belém. 1993
Ainda abalados pelos transtornos e humilhações sofridas, somos alertados de rumores que surgiam em Belém, envolvendo meu nome. Teruggi contrata e envia dois novos advogados (Dr. Busato fora dispensado com nossos agradecimentos). Chegando a delegacia, assombram-se ao escutar do delegado: “Ah! Ela mandou advogado? Então é por que deve.” E decreta minha prisão.

A correria se fez novamente na busca de amontoadas provas documentais para contrapor o desatino da acusação de que eu havia assassinado crianças em Altamira. Que barbárie!

Observação: Relembrar que a última vez em que lá estive deu-se em 1986, e os crimes foram cometidos a partir de 1989.

Nada sabíamos do assunto, pois não foram como deveriam, escandalosa e publicamente divulgados como fizeram com meu marido, eu, e o grupo do Lineamento. Aconteceram por lá e por lá ficaram acobertados, enquanto novos e semelhantes crimes prosseguiam sem que a polícia tomasse os devidos cuidados nas investigações e apresentasse o verdadeiro (os) culpado (os). Ilógico, mas logicamente para os ardilosos, os porquês existiam e um deles, o mais almejado para alcançarem seus propósitos, chamava-se na ocasião: Valentina de Andrade Teruggi. Imediatamente coloquei-me a disposição da justiça, como também o fez todo o grupo constante de L.U.S.

Conosco eram ágeis e não perdiam tempo. Inclusive, o delegado de Londrina na época se deslocou para a Argentina com a finalidade de averiguações e aqui retornou... de mãos abanando.

Enquanto sofríamos novos desesperos e atribulações, os advogados trabalhavam incansáveis no combate às infundadas acusações, até que, outro salvo-conduto me foi concedido.

No andamento da causa, três longos anos se arrastaram, onde nossa tranqüilidade deixou de existir. Mais ainda, quando uma pressão começou a ser exercida após o povo paraense tomar conhecimento por via difamações faladas e escritas, que Valentina de Andrade era a principal suspeita e responsável pela hediondez praticada contra as crianças.

Entre idas e vindas dos advogados a Altamira para a realização dos atos processuais, nada menos de 25 moradores do povoado que estavam no fórum para informar os fatos, foram unânimes em declarar não me conhecerem ou terem visto que não, através das fotos publicadas. Cinco ou seis homens residentes em Altamira constavam do processo, acusados de co-autores do infausto, sendo dois deles; médicos. Jamais houve qualquer vínculo entre eu ou qualquer dos acusados.

Ficou combinado que deveria apresentar-me diante do juiz atuante, Sr. Dr. Paulo Roberto F. Vieira, que por vias corretas foi averiguado pelos meus advogados, ficando comprovado tratar-se de pessoa da mais alta honradez. Com a pressão existente por lá, ir à “boca do lobo” não era fácil, mas fui confiante, acompanhada de Teruggi e meu novo advogado, Dr. Marco Antonio José Sadeck.

Na sala onde nos atenderam estavam os demais causídicos dos acusados e (soube depois) os pais de um dos meninos vitimados. Prestadas as declarações, regressamos. Sem demora, o preclaro juiz decreta minha impronúncia como igualmente aos demais. (Estávamos incluídos no mesmo processo). Aproveito mencionar que dentre as autoridades judiciais que se mantinham favoráveis a mim, outros, inclusive alheios às leis, se contrapunham com palpites e pressões interesseiras. Não lhes interessavam a verdade dos fatos.

Feita a justiça e crédulos de que tudo terminara, um grupo de amigos argentinos participou conosco de uma passeata pacífica na cidade de Londrina, onde portamos cartazes e palavras de ordem que repudiavam as maledicências difundidas. À frente, dois militares motorizados nos davam guarida, com a devida permissão superior. Pela cidade, não poucos nos enviavam sinais de V (vitória).

Com nome e sobrenome bem legível da beata, (Terezinha) paramos diante da sua casa. Ela? Nem sinal! Escondera-se ou estaria distante, ajoelhada e pedindo socorro aos santos. O padre havia descido das “alturas” e embarcado no "chá do sumiço."

No recinto ao que declarei estavam duas pessoas do sexo feminino, lado a lado. Uma era morena, e a outra bem mais clara. A primeira usava uma saia justa, tinha as pernas cruzadas e mostrava grande parte das coxas. Imagino ter sido ela, a do contra! Semi-analfabeta e ignorante de leis, eu acreditava que promotores estavam para fazer justiça e não, para incriminarem inocentes! Enfim, este é o mundo onde os valores estão ao inverso...

Eu e Teruggi voltamos a nossa vida repleta de carinhos, quando cerca de um ano após, somos informados que longe, longe de Londrina, meu nome era vinculado a fatos nada festivos. Aconteceu que uma promotora (que eu ignorava ser) estava presente quando declarei ao senhor juiz, Dr. Vieira. A dita cuja apela ao T.J.E. conseguindo reverter a sentença.

Seguem as angústias e inconformismos. Dr. Sadeck adoece e substabelece outro criminalista destarte, de Londrina. Meu desespero em conjunto a Teruggi e amigos, é indescritível.

Em Altamira, o advogado que presidia a defesa de um dos médicos entra com recurso ante o STJ para excluir seu cliente do processo. Até a resolução chegamos ao ano 2000, cujo passo a seguir, decidiram levar-nos a júri popular. Em estafa emocional eu nada queria saber, não podendo, portanto, assegurar qual dos meus advogados requereu o desaforamento do processo para Belém, -então deferido- para garantir minha segurança física, uma vez que os comentários eram de que em Altamira, inexistia.

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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