Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

A FATALIDADE.

14 de Maio de 2000.
Mi Amor, aficionado de esportes arriscados, costumava voar de para-gliding com motor (tipo pára-quedas) junto a outros com quem travara amizade. A princípio em Londrina, mas depois, passou a fazê-lo na cidade de Ribeirão Claro, distante 300 km daqui. Voltava feliz, porém, eu insistia em que desistisse, advertindo-o do perigo. Mas era tal sua alegria a cada vez que o praticava que obstei o temor sentido e não mais o forcei a desistir.

Domingo. 13 de maio. Dia das mães.
Junto a um grupo de amigos argentinos que nos visitavam, jogávamos volley frente à nossa casa, quando Teruggi surge e diz que iria para seu esporte favorito. Dirigimo-nos para dentro e peço que fique, pois estava reunida com os filhos (as) e sendo especial aquela data, me entristeceria se ele não estivesse. Abraça-me e após rápida reflexão chora, pede desculpas e para meu alívio, recua da decisão, dizendo que ao dia seguinte iria a Ribeirão Claro a fim de praticar seu esporte. Alego que seria data comum naquela cidade e seus companheiros estariam trabalhando. Argumenta que lá o feriado fora postergado para 14. Não tive como demovê-lo e viajou feliz. Recordo que logo após, ouvi num programa televisivo ao que me acostumara, uma astróloga, que “chegando” ao signo de capricórnio (mesmo de Teruggi) manifestou exatamente: “Tome cuidado hoje quando for se divertir, pois algo poderá acontecer que mudará o rumo da sua vida.”

Sabedora e atenta a que nada é ao acaso, por várias vezes tentei chamá-lo ao celular, mas não houve conexão. Por outro lado, eu desconhecia os números telefônicos dos companheiros de Teruggi. Nossos amigos, costumeiramente viajam para cá, de carro, e haviam retornado à Argentina. Teruggi insistia muito para que Valentina o acompanhasse nos vôos, havendo preparado um lugar conjugado para divertirem-se juntos, afirmando que ela experimentaria uma sensação inimaginável.

Às vésperas do esporte, dormia em quarto separado para não despertá-la, visto que; levantava-se muito cedo. Justamente naquela manhã, Valentina decide alegrá-lo mostrando confiança e participando. Escutando o ruído do carro, corre à janela chamando-o, mas ele não ouve. Rapidamente se dirige à outra fronteiriça e torna a gritar, mas ele seguiu viagem sem escutar os chamados. Cerca das 14h30, Valentina está costurando, quando um de seus filhos recebe um telefonema. Com feições transtornadas, aproxima-se e comunica sobre um acidente que levara Teruggi a óbito. Despreparada pela notícia abrupta, aos gritos, ela deixa-se cair ao piso. Segundos após, levanta-se e desvairadamente sai à rua e tendo os braços abertos clama por ajuda. Uns pedreiros que trabalhavam a poucos metros a tudo vêem e apenas sorriem, sequer aproximando-se para indagar o que acontecia. Humanos? Bah!

Os de casa tentavam confortá-la e eram afastados, enquanto que ela continuava a correr pela via pública, quando encontra uma senhora que a ampara e, carinhosamente a conduz de volta a casa. Em choque, Valentina nada fazia que não fosse gritar, clamando a Teruggi que voltasse para ela!

Seu filho se encarrega de inúmeros telefonemas e minutos depois a notícia se espalha. O primeiro a chegar foi um advogado conhecido. Ele e um dos filhos dela dirigiram-se à cidade de Ribeirão Claro para reconhecimento do corpo, pois Valentina não tinha forças para enfrentar a trágica situação. O acidente fora terrorizante! Teruggi falseara no momento de saltar, despencando de grande altura. (Por motivos óbvios, pormenores serão evitados). Realizados os trâmites necessários, uma funerária encarregou-se de enviar os restos mortais -atendendo ao que sempre pedira- para cremação na cidade de São Paulo, pois em Londrina, não existe. Um médico atendeu ao chamado para socorrer Valentina que em prantos angustiantes, implorava que dissesse tratar-se de um engano, que Teruggi não havia sucumbido. Ele a olhava piedoso e calava ciente da realidade. Chega então, outro e recente advogado de Londrina, (com tantas perseguições...) seguido da esposa. Posteriormente fico a par de que jornalistas estiveram para reportar o fato e foram impedidos por ele. Algumas horas mais e regridem os amigos que pelo trajeto souberam da tragédia.

Meu desespero não pode ser descrito, se não, pelos que presenciaram. Ao dia seguinte, a rua estava repleta dos solidários argentinos que ali permaneceram dia e noite, já que a casa não comportava tantos. Os companheiros que puderam ficaram alguns dias enquanto que os demais retornaram para seus compromissos. Valentina chorava constantemente e chamava aos gritos por Teruggi, no desejo sincero de que viesse buscá-la. Não sabendo o que fazer para que eu saísse daquele sofrimento, o grupo feminino idealizou um novo casório para ela, mesmo porque, era conhecido o fato que desde jovem afirmava que casaria tantas vezes quantas necessárias e não deixaria este mundo, sentindo-se infeliz. Mas... com quem? Algum tempo depois fiquei a par de que “percorreram” e anotaram todos os integrantes do Lineamento e conhecidos de fora, na procura do candidato que se adaptasse a tantos “filhos de uma só mãe e pais diferentes!” Não era fácil, e quando insinuaram o casório os taxei de “loucos,” contestando que morreria de Amor. Entretanto, a morte, por mais que roguei e com fúria a desafiei, voltou a dar-me as costas.

Insistentes no casamento e, já que a “madame” era surda aos meus apelos, dias depois assenti desde que, fosse com um velhinho, doentinho, precisado de Amor e cuidados. Voltar a casar divergia dos meus planos, todavia... constava dos Planos de mais além!

 

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
Banner