Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

INICIA-SE O JÚRI POPULAR.

 

Ao tomarem conhecimento da minha decisão em apresentar-me, “filhos,” amigos e conhecidos entraram em pânico! Unânimes contra meu comparecimento, diziam que se eu fosse cairia em nova armadilha. Ninguém, sequer outros advogados conhecidos confiavam que a justiça seria feita, pois corria longe o falatório de que no Pará, ela era duvidosa. Fiz-me de surda, compareci e enfrentei, pois quem não deve... Chegamos à Belém pela madrugada anterior à data marcada para o júri e ficamos a par de que outros dois advogados daquela capital trabalhariam em conjunto com o atual, que no momento estava impossibilitado de comparecer. Na manhã seguinte, em contados minutos para conversar fomos diretamente para o tribunal. Os recentes causídicos desconheciam que eu me casara novamente. Numa grande sala disposta para os réus e respectivos defensores, aguardávamos pela convocatória, quando o senhor letrado Dr. Clovis Martins que me acompanhava, aponta dois homens, dizendo formarem parte das acusações. Um bastante jovem, chorava desconsoladamente. Alertada do impedimento de falar com qualquer deles, não pude aproximar-me para consolá-lo, porém, nossos olhos se encontraram por segundos e ele meneia a cabeça em sinal que entendi como de inconformismo e inocência.

Ao aviso de que seriamos chamados fomos colocados em fila, quando percebo a menos de 1,5m e encostado a uma parede, um senhor que me desperta atenção pelas abundantes lágrimas que enxugava com as mãos. Condoída, penso tratar-se de um parente dos acusados, e por trás do advogado estendo-lhe um lencinho de papel, que recebe. Aproxima enxugando as lágrimas e diz ao advogado, a seguinte frase: “Eu nunca vi essa senhora, e é ela que dizem que estava na minha casa.” (sic) Somente ali, inteiro-me tratar-se de um dos médicos sob acusação. As imputações eram de crimes hediondos, onde crianças foram emasculadas.

Meu nome foi o último a ser proferido. Entro e o vejo cabisbaixo (salvo engano estava outro também), sentado diante do juiz e demais auxiliares. A sala estava repleta, inclusive de jornalistas, fotógrafos, cameramen e todo um aparato policial.

Com a fronte altiva (não de arrogância), segura da minha inocência e comprovação, não fugi dos flashes e olhares acintosos que percebi diante de uma ligeira parada que dei, pois, obcecados por me verem, deixei que me olhassem e fotografassem a bel prazer. Após responder as perguntas de praxe, (nome, idade e outras) o juiz me dispensa, marcando a data de 02 de Setembro para novo comparecimento. Aguardando o avião que nos levaria a Londrina sou requisitada por uma repórter a conceder uma rápida entrevista que atendi. Em dado momento indaga se eu estaria presente à convocação marcada. Ante a resposta afirmativa, capto uma expressão de clara surpresa e dúvida. Sucedia que os jornais nortenses apontavam-me como “monstro.” Tais fatos vociferados nos eram desconhecidos, por não serem minimamente divulgado pela mídia aqui no Sul. Na época, não utilizávamos a internet em busca de informações.

De Londrina seguimos para Argentina em busca de comprovantes outros, para assegurar-nos de qualquer eventualidade. Em tempo para a data citada, retornamos ao Brasil.

Em São Paulo quando nos encaminhávamos para Belém, munidos das passagens, nos acompanhava uma das filhas argentinas, quando chega a informação que o júri fora desmembrado e eu deveria comparecer no próximo dia 22 para o julgamento popular. Aconteceu que um advogado de Belém requisitou ao juiz que eu fosse dispensada da apresentação do dia 02, por ser meu comparecimento, unicamente para a notificação da data. Decidimos então retornar à Argentina para obtenção de documentações relevantes que estavam sendo providenciadas. Com tantas atribulações e injustiças, sentia-me débil. Enquanto meu marido apresentava as documentações para o vôo, o encarregado pede que aguardemos e dirige-se a outro recinto. Pressinto vertigens e minha filha me ampara levando-me para fora. Percebendo a situação, meu marido deixa nossos documentos e vem em meu socorro, preocupado, já que, por três vezes e diferentes médicos fui diagnosticada como padecendo síndrome de pânico. Optamos então por passar a noite em um hotel para que pudesse recuperar-me. Foi chamado um médico que me assistiu e medicou. Coincidentemente, Dr. Busato estava na capital e comparece. Pede que eu encontre forças e não falte à Belém. Para me pouparem, não foi dito que se eu não comparecesse em tempo e hora até o final da sessão na qual um dos envolvidos estava sob julgamento, (iniciada dia 02 e sem data para término), seria ditada minha prisão, pois o pedido de dispensa fora indeferido. Tudo para mim; era indeferido.

Na manhã seguinte e mal podendo suster-me, embarcamos rumo à Belém. Na escala em Brasília fui levada ao pronto socorro do aeroporto, pois me sentia extremamente mal. Pela madrugada (dia 04) conheci um novo inferno!

 

Bode expiatório.

Tal cognome é originário do tempo em que os hebreus em suas crendices, sacrificavam pequenos animais que ofertavam aos “Deuses,” na certeza de que o sangue das pobres vítimas carregaria consigo os pecados dos matadores.

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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