Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

O ESPECTRO DO IMPREVISÍVEL.

 

Dentro do prazo estipulado apresento-me para ser notificada da próxima data. Ao adentrar o plenário, vejo o médico -a quem entreguei o lencinho- com expressão de dor e humilhação, sendo julgado. O quarto acusado, também médico, não se encontrava presente e aguardava outra data.

O juiz faz as costumeiras perguntas e quando me preparo para sair, toma de um papel e... (não desejo buscar nas documentações as exatas palavras, mas recordo o conteúdo):

“Por haver-se hospedado sob nome falso e tentativa de fuga (*) do país; decreto sua prisão.”

Os recentes advogados saem apressadamente (relembrem que desconheciam eu estar casada), indo à busca de um Habeas Corpus.

Ao ouvir semelhante disparate fico sem reação e calo em minha defesa, pois um amigo “paranóico,” ante tantas ignomínias, me assustara, dizendo que se ficassem a par de que eu estava casada com um jovem, meu marido seria o primeiro a ser preso. Supra-sensível que me encontrava e sem poder pensar, para preservá-lo, calei. O falso nome alegado era o sobrenome de meu esposo, portanto, legítimo. A situação me fez recordar o castigo no colégio, pois igualmente nada, absolutamente nada a respeito me foi perguntado, esquecidos (?) dos ditames: “Todos os homens são iguais perante a lei e tem direito a defesa, sendo inocentes até prova em contrário.” A lei assim o diz, mas cumpri-la... é exclusividade dos que a preservam. Entretanto, pensando bem, está referido: homens. Não inclui a mulher, o que subentenderam ser exceção à regra e fizeram o que lhes deu nas venetas! Daí surge o conhecido: “Feita a lei, feita a trampa!” Toparam comigo e, “talvez afetados por delirium tremens, trampearam.Entre risos, assim me disse um médico.

(*) Fuga do país: Uma estagiária do escritório advocatício de Curitiba telefona para meu marido e comunica que eu havia sido dispensada de ir a Belém, pois a data para minha apresentação fora protraída. Da informação errônea foi que decidimos aproveitar para viajarmos até Argentina.

O plenário estava repleto e ofertou aos pré-julgadores que tiveram as cabeças enxovalhadas pela mídia em oposição a mim, aplaudirem a brusca decisão. Fui retirada para a sala contígua e minutos depois, algemada e colocada em um carro que girando chamativas luzes e grande alarido, anunciavam o transporte da propalada “assassina” para o presídio. Meu marido a nada presenciou por haver sido pelo “paranóico,” impedido de comparecer.

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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