Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

DE INFERNO A INFERNO!
A Prisão.

 

Cheguei ao entardecer, sendo colocada em um dos cubículos onde o espaço alcançava para um colchão nu e a poucos passos, podia-se ir ao “banheiro” que não passava de uma latrina imunda e um cano embutido na parede, para a higiene corporal. Naquele cubicular são colocadas as presidiárias recém ingressadas, onde ficam por três dias e noites, sem direito a visitas ou qualquer contato que não os das agentes. Tal “acomodação” era chamada de triagem, ou castigo e ali fiquei confinada! Segundos depois, uma das prisioneiras grita por duas ou três vezes da janela de sua cela: “Valentina? Você vai morrer!” Não temi pela vida nem me apavorei. Soubesse aquela boboca que a morte para mim seria um alívio, ter-se-ia calado. Entretanto, uma das presas me envia um lençol, único abrigo que usei para não ficar sobre aquele malcheiroso colchão. Minutos após, o plantão feminino encarregado daquele período adentrou, e durante horas conversaram comigo, sem perguntas ou insinuações maliciosas, o que me tranqüilizou. Não fui agredida sequer com olhares malévolos. O calor era sufocante e pernilongos fervilhavam. Perto do amanhecer, as agentes saíram surpreendidas por me verem acordada, embora houvesse ingerido forte sonífero.

Para descrever-se com detalhes o que sente uma flor, tem-se que haver sido. E quem não vivenciou um calabouço não poderá expor a realidade dos fatos, mas eu posso, pois aferrados a mentiras, conspirações, tramóias, perseguições, e unidos na “guerra santa,” vassalos da ignobilidade obrigaram-me a conhecê-lo.

Pela manhã, recebo bolachas, doces, frutas, leite e derivados que meu marido enviou. Não conseguindo alimentar-me, reparti com outras presas que foram chegando. Sequer uma, ofendeu-me ou colocou-se como julgadora, mesmo tendo conhecimento de que a “famosa” Valentina ali se encontrava. Cumpridos os dias do castigo e em total fraqueza, fui retirada e levada a uma cela. Mal podendo caminhar, deixaram uma cadeira onde me sentei rodeada mais pela curiosidade em me ver, do que outras quaisquer. Conversamos uns minutos e não fui hostilizada. Mas tortura ainda maior, ali preparava seu início. A pequena e abafada cela, que jamais assim a pronunciei que não fosse quarto, acomodava quatro beliches, um ventilador de tamanho razoável, televisor, banheiro desprovido de porta, uma patente, ducha, e diminuta pia de plástico para a lavagem de roupas, pratos e utensílios. O almoço era entregue às 11 h e não passava de arroz, feijão e dois pedaços de frango frito e seco. O jantar às 17 h, continha apenas arroz e um pedaço de carne dura e gordurosa. Ninguém suportava mais, nem o cheiro. As demais prisioneiras, eu as via misturando à comida, açaí líquido e uma farinha grossa.

Saudável que sempre fui, passei a sofrer uma série de sintomas que eu desconhecia inclusive dispnéia, tremores generalizados que impediam fosse tomada minha pressão arterial (levantando entre as enfermeiras a suspeita de ataques epiléticos), desmaios freqüentes, lapsos de memória, insônia permanente, falta de apetite, hipertensão e maior desequilíbrio nas pernas. A tudo eu suportava sem queixas e ocultando de meu marido assim como de meu filho - que comparecera de imediato para alentar-me-, todo o padecimento. As visitas eram recebidas às quintas-feiras e domingos, das 09 às 16 h. Tínhamos direito a receber telefonemas nas quartas-feiras ao mesmo horário, quando dois dos alojamentos eram descerrados. Passávamos 24 h, abafadas e prisioneiras na real expressão das palavras. Para as “meninas” tudo estava bem e não se queixavam, sendo que para a maioria, a prisão era familiar!

Aos primeiros dias, marido e meu filho, confiantes de que após a comprovação de que meu nome era legítimo e não houvera tentativa de fuga, se daria a revogação, pois de imediato à prisão, foi apresentada a certidão de casamento e passagens antecipadamente tiradas para o retorno à Belém, provando não haver existido o apregoado. De nada adiantou e continuei enclausurada.
Saibam os leitores, que chegaram a consultar telefonicamente ao tabelionato de Londrina para verificação da certidão de casamento apresentada. Mesmo comprovada sua autenticidade, solicitaram um original que foi remetido. E remexeram por todos os lados em busca de algo que me pudessem cruciar ainda mais, visto que, o já armado pelos antigos inimigos, para aqueles, os “pregos” eram um oásis num deserto árido onde saciavam a “sede de perversidades.” Até ali eu tentava suportar, enquanto que minha família e demais amigos se ocupavam juntamente aos advogados, da correria para conseguirem retirar-me daquele ambiente infra-humano. Mas... todos os pedidos eram denegados pelo juiz Dr. Ronaldo Valle.

Dias e noites se arrastavam e pouco faltou para que eu ficasse paralisada diante do palavreado de baixo calão, ditos constantemente como algo natural. Cenas de lesbianismo? Evito comentários a não ser, que ocultava meu rosto para não presenciar se algo relacionado ocorria.

O minguado café matinal era entregue às 05 h através das grades, sendo meia xícara sem leite acompanhado de contados pães que nunca tentei comer, dada a aparência de intragáveis! Ao mesmo horário, não faltava quem levantasse indo ligar a televisão, que em tonalidade nada embaladora, seguia até cerca da meia-noite. Eu atenuava o ruído que se expandia com as demais madrugadoras, utilizando-me de um tampão feito com bolinhas de algodão. Durante o dia se entretinham em cantos e rebolados, sendo que uma delas andava geralmente despida do sutiã e sem o menor pudor. Após o banho diário, passava nua ou em seminudez com total naturalidade. Por variadas vezes vi-me surpreendida ao vê-la totalmente despida e rente à cama onde eu me recostava. Assemelhava-se em muito, às esculturas e pinturas do célebre escultor colombiano, Fernando Botero (famoso por suas obras de nus artísticos dedicados aos obesos). Ao perceber tal “paisagem,” escondia meus olhos sob os braços fingindo dormir. Com esta descrição, não estou discriminando aos fofinhos ou barrigudinhos. Apenas comento o sucedido. A garota se achava cativante e dona do “pedaço.” Era mandona e das mais desbocadas. Mas tinha algo em seu favor; às 18 h junto a umas quatro ou cinco, rezavam aos gritos e ao mesmo tempo! Cada qual com as próprias orações clamavam a Jesus que limpasse seus corações. Enquanto isso, as demais dançavam e conversavam.

Era tanta a gritaria que ninguém entendia ninguém e, não passavam segundos da reza brava, retomavam aos costumeiros palavrões! Em determinada ocasião não pude conter-me e adverti que não deveriam seguir o palavreado obsceno, como mínimo, ao término das orações. Nada argumentaram e prosseguiram na mesma.

Os noticiários televisivos deliciavam-se no alongamento da trama, colocando Valentina de Andrade como ápice das manchetes. As presas aumentavam o volume na espreita e sempre mui atentas. Deitada e de ouvidos tapados, eu esfregava as mãos sobre eles para nada ouvir. Pelo menos, diante de mim, as presidiárias nada comentavam. Percebi também, que à noite, as (os) agentes transportavam uma TV para o pátio onde se reuniam a fim das novas. Era compreensível a curiosidade. O “monstro” ali estava prisioneiro!

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
Banner