Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

Retomando e resumindo o anterior assunto, o CRF (presídio feminino) constava ademais das prisioneiras, suas diretoras, agentes, enfermeiras e três médicas: Clínica geral, uma senhora psicóloga e uma psiquiatra. Destaco a esta última, permitindo aos leitores compreenderem o motivo.

 

A PSIQUIATRA.

 

A "pisica" (como era chamada por presidiárias), vez por outra aparecia e em uma delas fui convocada. Mal me sustentando e amparando-me pelas paredes, subi vagarosamente a longa escadaria. Solicitando licença entrei na salinha sentando-me na cadeira frente à psiquiatra. As perguntas tiveram início. Costumeiramente, trato as pessoas usando carinhosamente a expressão: Querida. Ao responder, disse: "Querida..." para quê? Fui rudemente interrompida e admoestada: "Não sou querida." "Meu nome é DOTÔRA" (e mencionou seu nome, que esqueci). E que ao ler estas palavras não me queira contradizer, pois deve lembrar-se muito bem. Ademais, não sou mentirosa. No entanto, saberia o que falava e me pergunto: Será ególatra e querida apenas por si?

Ante tal arrogância, meus olhos marejaram. Respondi o questionamento rotineiro e nada comentei a ninguém. Perdi o interesse em voltar a lhe falar, mas, dei asas ao pensamento:
Ela vive da desgraça alheia. Terá alguma vez se colocado no lugar do paciente? Terá sentido o desespero de quem é sua obrigação, ainda que seja o pior dos criminosos, ouvi-lo e deixar que desabafe para depois analisar e dar seu parecer, ao invés de pisá-lo, colocando-se como senhora supremacia? Terá coração ou apenas um órgão amorfo? Não me cabe responder.

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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