Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

AS ENFERMEIRAS.


De pronto não fui bem-vista por várias delas, o que é compreensível pelas imundices proclamadas pela mídia. Costumo dizer que não houve lavagem cerebral para com o povo, mas sim, que emporcalharam as mentes.

Com o passar do tempo cansaram de olhar-me feio. Mas, toda regra tem sua exceção, portanto, faço questão de mencionar uma das enfermeiras que desde nosso primeiro contato, mostrou-se meiga, atenciosa, e cumpridora dos horários em levar-me as medicações. Receba meu beijo e gratidão, querida Lindalva.

 

 

AS “COBRAS.”

 

Assim era chamado abertamente um grupo de agentes femininas. Eu mal chegara aquele inferno quando escuto essa nominativa.

Em uma das tardes estou à espera dos telefonemas quando passa uma jovem senhora a quem pergunto: “Dona cobra, qual é o seu primeiro nome?” Ela dirige-me uma olhadela, coloca a mão na boca abafando um riso e se vai. Fez-se um segundo de silêncio e as meninas que por ali andavam, gargalharam, quando então, fico sabendo não tratar-se de um sobrenome. Durante os tenebrosos três meses aos que me vi aprisionada, não percebi um só motivo que justificasse tal apelido.
No decorrer do tempo, ficou evidenciado que meu comportamento se diferenciava das demais presidiárias. Sempre respeitosa, com pedidos de licença, agradecendo ao mínimo que solicitava, calada e de humildade natural, passei a ser para algumas, a conselheira sentimental. Não tenho, portanto, queixas, salvo no princípio alguns gestos e palavras de outras prisioneiras, ao que me fiz de desentendida. Cito um ex: Uma delas passa diante do quarto onde eu estava, e faz o sinal da cruz na minha direção. Pobre mulher! A ela ouvi chamarem de carniça, porque às vezes levava à rua um carrinho com sobras de ossos.

Na espera de minha família chegar, -era dia de visitas- uma das agentes comenta que parentes e outros perguntavam a meu respeito, ao que respondia: “Tomara que lá estivessem 200, 300 (e faz um gesto como repleto) Valentinas que estaríamos sossegadas.”

Muitas vezes, as presidiárias pediam que abrissem a porta para irem à enfermaria, o que não passava de uma desculpa para darem umas voltinhas. É compreensível o motivo, contudo, jamais as imitei.

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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