Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

O “APRENDIZADO.”

 

É sabido que um presídio recebe as mais variadas espécimens de delinqüentes. No quarto onde uma justiça-injusta me arremessou, a maioria traficava drogas. Outras estavam por homicídio doloso, culposo, assalto a mão armada, furtos e não sei que mais! Impressionou-me a naturalidade e maneira como explicavam sobre o modo utilizado para delinqüir. Explanavam como traficar, roubar as lojas e onde esconder as mercadorias ao sair, passando despercebidas. Muitas afirmavam que voltariam ao mesmo quando retomassem a liberdade.

Cada nova presa respondia após ser perguntado, com tal número ou artigo que desconheço a referência e nem quero conhecer! Às que se preparavam para as audiências, recebiam das “entendidas” um verdadeiro show de doutrinado em como mentir ao juiz, negar aquele ou outro fato e poderem jogar a culpa sobre qualquer, desde que conseguissem o desejado Alvará de Soltura. Mesmo usando os algodoeiros a tudo eu ouvia estarrecida, incluindo as mais diversificadas maneiras de delinqüir. Quem tiver propensão para o fato, sairá um expert no assunto.

Ali também, os furtos eram descarados. Dei falta de comestíveis (que sempre comparti com elas), peças íntimas e guloseimas. Não delatei à gatuna embora evidenciasse quem havia subtraído, pois era sabido que seria mandada para os três dias no castigo.

Ignorava também que naturezas mortas caminham! Naquele lugar tinham consciência própria e “caminhavam,” sendo que uma noite, levanto a menos de um metro para receber da enfermeira, meus remédios. Deixo sobre a cama uma receita que recebi da médica particular, para meu devido controle. Tardei poucos segundos em retornar e dou falta da receita que eu não descuidava. Procuro, reviro os lençóis e olho sob o beliche. Pergunto se haviam visto, assegurando não havê-la perdido. Ninguém apontou a ninguém e segui na busca que foi em vão. Amanhece e continuei a inútil procura, quando uma tarde e diante das demais, uma das presas me estende a “fugitiva.” Apontando um beliche distante, diz havê-la encontrado sob o colchão. Encarei a responsável pela ladinice e mirei as outras entendendo a cumplicidade no desaparecimento, mas nada comentei.

Ao lado do beliche que eu ocupava, colocaram uma recém chegada jovem de raça negra e origem muito humilde, que fora presa por míseros R$2,00 que um traficante lhe dera para ocultar ínfima quantidade de droga. A moça aceitou por necessidade de pão para seus filhos que atravessavam grande penúria. Era uma moça que não dizia palavrões nem conversava.

Nunca maltratei a ninguém, mas, houve presas que abertamente me discriminaram. Assim, deixavam-me à parte de tudo e minhas permanentes lágrimas eram ignoradas, salvo por uma ou outra que procurando consolar-me, pedia que não chorasse. E como, não chorar? Interessante observar que o tratamento entre elas, era: “mana,” e para comigo: Dona Valentina.

Uma tarde chega uma jovem senhora acusada de tráfico. As razões explicadas mostravam ser inocente. O alojamento estava superlotado e várias dormiam no chão, lugar que também lhe foi designado. Condoí-me e disfarçadamente assinalei que algo faria em seu favor. Paguei a uma delas para que lhe cedesse sua cama, o que foi aceito, ficando o conchavo entre nós três.

Na manhã seguinte, a recém chegada mostra-se atenciosa e comento sobre minha estada naquele lugar, afirmando estar absolutamente inocente do que me acusavam. Ela escuta, e “jura por seus netos, que mais amava no mundo,” acreditar. Não tardam dias e se adapta a todas, sendo chamada de tia, tão logo da sua entrada. Sempre que me ouvia chorar ainda que abafado, vinha para meu lado e seu conforto não me faltava. Numa das insuportáveis e mal dormidas noites, sou acometida de um mal-estar jamais sentido. Acreditei que por fim, a morte atendia meus desesperados apelos. Chamo então pela “rezadora” (que desistira de rezar) e peço que a meu lado, lesse um salmo referente a Jesus, o que prontamente atendeu. A “menina” tinha um bom coração, pena que seu caráter não acompanhasse. Ao mesmo tempo, solicito a presença da mencionada senhora e a quieta vizinha de cama. Era noite tardia. Segurando a mão das duas, expresso faltar-me as forças e, talvez não voltasse a ver o amanhecer. Com voz enfraquecida, peço que transmitam aos meus familiares e amigos, do Amor sentido por todos eles. A seguir, fiz um juramento mui triste -que prefiro não recordar, colocando somente o trecho final- onde testifiquei não carregar uma gota de culpa do que fui acusada desde anos passados e até aquele então. Indicando as três como testemunhas, finalizei meu pedido com as palavras: “Caso eu não veja o amanhecer, que não chorem, pois finalmente, Estarei Unida Ao Pai.”

Entretanto, a manhã despontou e continuei enclausurada.

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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