Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

O “CÃO.”

 

Era o apelido que ouvi referente a uma das presidiárias que ficava no quarto ao lado (para condenadas). A moça não tinha “papas” na língua. Ninguém se metia com ela e o que tinha a dizer, não deixava para depois. Eu repartia o mesmo alojamento que sua íntima amiga, que fora flagrada recentemente em um assalto junto a uma quadrilha armada.

Em dias programados, o “cão” visitava seu marido no presídio masculino que distava de onde nos encontrávamos. Uma noite a energia elétrica falhou e o ventilador sem funcionar, levou-me a desmaiar pela falta de ar. Soube que as “companheiras” gritaram e auxiliaram uma das agentes que me retirou para o ar livre. A moça que a principio me hostilizara, espia pela janelinha e grita que eu estava fingindo. A agente me vê consternada e diz que “não dê bola” ao que escutara. Sinceramente, aquela agressão dialética não me atingiu, por compreender que a jovem condenada sentia sua vida consumir-se lentamente, ante seis condenações e muitos anos a cumprir. Uma tarde dirijo-me ao freezer que ficava à disposição das internas e escolho alguma das guloseimas impostas pela médica particular que me via enfraquecer dia-a-dia. (A permissão para meu atendimento pela senhora doutora foi dificílimo e outro sofrimento!) A moça ao ver o que eu retirava, diz: “Dona Valentina, me dá um.” Restavam apenas dois. Fiz menção de levar-lhe, mas a agente responsável pelas retiradas, impede, argumentando serem para mim e eu deveria cuidar-me. Optei então, por algo diferente. Ao dia seguinte, -data dos recebimentos telefônicos- não esquecida daquele pedido, saio e aí sim, ingiro um e guardo comigo o outro. Pouco depois ela está sentada à porta conversando com sua amiga. Vou a sua direção e entrego o que me havia pedido. Recebe e erguendo-o, diz com arrogância: “Dona Valentina, isto aqui para mim é nada.” Sorrio e respondo que guardara, por não haver esquecido que ela me pedira.

Indiferentemente, as horas seguiam seu trajeto moroso, para quem espera. Enquanto eu aguardava no quarto que meu marido telefonasse, ela surge e com voz autoritária, me “intima” a depois falarmos. Saio de imediato e ela se dirige para outro lado. Fico na expectativa. Decorridos minutos, aparece e senta-se junto a mim. Comenta que naquele lugar ninguém era amiga de ninguém, e que só confiava... e cita o nome da amiga. Que não me falava como amiga nem como inimiga, mas que meu nome corria em determinada situação (recusou-se a dizer qual), e que eu não confiasse em ninguém. Agradeci, enfatizando que nada tinha a ocultar, e que era visto o pouco que eu dialogava. Daquele momento em diante passou a não mais me “guerrear,” chegando um dia a pedir-me desculpas, afirmando haver-se ajoelhado e solicitado perdão a “Deus” por haver-me agredido verbalmente. Percebendo sinceridade, lhe sorri com ternura e afaguei seu rosto.

Em outra oportunidade, vejo as duas amigas conversando entre as grades do quarto onde o “cão” vivia. Passo e noto seus olhos que estão tristonhos. Paro e pergunto se podia ajudá-la. Serenamente me diz pertencer a uma família de posses e que dentre os irmãos, era a “ovelha negra.” Digo que nunca mais repetisse aquelas palavras. Peço então que ela preste atenção ao que lhe diria e relato a conhecida historieta do Patinho Feio, terminando num simbolismo que agreguei: “Querida, as pessoas têm por costume ‘medir’ as demais pelo que vêem e, por falta de informações desvalorizam o importante, que é o próprio ser interior. Talvez um dia, o patinho se mostre o mais belo dos cisnes. Você entende o que estou querendo dizer?” Pensativa, meneou a cabeça em sinal positivo, (sei que não interpretou por faltar-lhe informação) e vi meiguice em seus olhos.

Ela não era nenhum “cão!” Tratava-se de uma jovem bonita, necessitada de compreensão e carinho para prosseguir seu malfadado destino.

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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