Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

A ESPARRELA.

 

22 de Setembro de 2003

Esta era a data marcada para o início do julgamento de Valentina de Andrade. O fato trazia-me alívio, pois, não via o momento de ver-me livre da espera e tanto horror. Os demais acusados, em três dias foram julgados e condenados, variando as sentenças entre 35 e 77 anos.

Atingido dia 19, uma das diretoras me chama e diz que eu seria transferida naquele mesmo instante para outro presídio (masculino), onde ficando a sós em uma sala e sob cuidados de outras agentes, eu me sentiria melhor longe de ruídos, podendo preparar-me para julgamento. Perguntei se meu marido e advogados estavam sabendo e respondeu que não me preocupasse, pois lhes seria comunicado. Separei o necessário, fui algemada e levada ao lugar mencionado. Em lá chegando os olhares se automatizaram sobre mim. Colocaram-me num imenso local rodeado de grades, tendo aos fundos de uma curva, um espaço aberto por onde saíram, deixando-me só. Junto às paredes estavam bancos estreitos feitos de concreto, onde me deitei, ficando ao aguardo de que alguém viesse buscar-me. O calor sufocava. Passam-se vários minutos e tenho certeza de haver desmaiado, visto que, ao abrir os olhos percebo uma senhora debruçada sobre mim e chamando por meu nome. Ela me ampara e nos dirigimos a uma escadaria. Outra agente oferece-me o braço em ajuda para galgá-la e lentamente consegui chegar ao local designado. Era uma grande sala onde prepararam uma cama. Deito-me atacada dos costumeiros e incontroláveis tremores. A curiosidade era grande e contínua com o passar de agentes. A porta aberta permitia que me olhassem sem a menor discrição. Constantemente eu perguntava acerca de meu marido e advogado que acreditei estarem quando da minha chegada. Tanto insisti, chorei e pedi para telefonar, que uma das agentes consegue que o encarregado do comando, permita. Dele, um senhor de raça negra (é a segunda vez que propositalmente menciono “raça negra,” para desfazer as más impressões de terceiros em relação aos negros), guardo boas recordações, pelo educado e gentil que se mostrou. Diante dele e outro policial, falo com meu marido que, surpreendido, diz não haver sido comunicado como tampouco, um só dos meus advogados. Retorno à sala, e outra agente que ali também chegara, passa a conversar comigo na finalidade de me acalmar. Estamos assim, quando adentra com sorriso que acreditei afável, um rapaz de pele clara e aparentando aproximados 35 anos que ali trabalhava. Rodando entre seu dedo -se bem recordo uma chave- vem a mim e diante de todas nós menciona as seguintes palavras que recordo perfeitamente: “Me chamo Emerson. Sou sobrinho do juiz Ronaldo Valle e conheço todo o processo. A senhora tem bons advogados, mas quero ver conseguirem desfazer as provas contundentes que existem contra a senhora.” Com sorriso de escárnio e acreditando-se um destacável personagem, tranquilamente se vai. Após aquela agressão psicológica, senti-me ainda pior dos tremores. Infantilmente, acreditei que igual a outros, aquele sujeito viera dar-me forças. E agora pergunto: Como anda a sua língua? Que fez com ela? Engoliu? Se ainda pode falar, diga se consegue sustentar que uma autoridade que se preza vai mostrar documentações oficiais ou tendenciosas -assim as tivesse- para qualquer. Tua certeza foi tombada, massacrada e sofreu implosão, não por aqueles advogados e sim, pelos meus reais, pois ficou comprovado que as tais “contundentes” e similares nunca existiram nem existirão.

Uma das agentes menciona que o dito cujo tinha por costume anunciar freqüente e desnecessariamente o tal parentesco. Enquanto isso, outra atendente se retira, mas a segunda que me ajudara nas escadarias, permanece. Extenuada e perversamente atingida, aparece outra funcionária. Corpo e estatura avantajada, arrogantemente se posta diante de mim com impropérios. Em voz gritante e autoritária, dedo em riste apontando o piso, diz: “Você deve ficar de joelhos e pedir perdão a Deus pelo que fez.” Ante meu olhar atônito, impiedosamente continua: “Vai me dizer que não teve nada com aquelas crianças?” E que ao tomar conhecimento destas palavras não se faça de vítima nem jure que estou mentindo, que somente acrescentará outra infâmia a si própria. Recorde também: “Quem bate esquece, mas quem apanha jamais esquecerá.”

Enquanto esbravejava, percebi claramente que era estimulada pela segunda que me amparara na escada, porque ao tempo em que me “sacrificava” olhava para a cúmplice que se postara atrás da cabeceira da cama onde eu me deitara. A outra agente que se apoiara sobre uma grande mesa fingia olhar pela janela e a tudo ouvia. Não suportando aquele outro massacre, em desespero soltei um grito tipo horror cinematográfico, que deve ter acordado até os cachorros das vizinhanças. Ante a inesperada reação, as três certamente levaram um susto e saíram de fininho. Passo a noite acordada, extremamente abalada e em fortíssimas convulsões que eu não conseguia dominar.

Não tardou e meus familiares chegam espavoridos e trazendo alimentos. Um dos advogados também comparece. Nada comento das agressões dialéticas, sofridas. As visitas obtiveram somente meia hora para estar comigo.

Segunda noite sem dormir e os contínuos tremores já eram “amigos” permanentes. Não havia remédio que eu tomasse e os fizessem diminuir. Ao terceiro dia comparecem dois dos advogados que vejo soltando “faíscas” por todos os lados, mas nada pergunto. Em sala separada estamos conversando e percebem meu estado. Insistem que lhes diga o que estava sucedendo. Nego-me, argumentando ser parte do sofrimento e todo o desespero, diante do injusto enfrentamento à que seria submetida. Nervosos, tentam fazer-me falar, afirmando que se eu ocultasse algo não poderiam me defender. Segredo então a ocorrência que os deixa embasbacados e ameaçam fazer com que os agressores percam seus postos. Falam alto e que pouco lhes importava se houvessem câmeras e microfones naquele recinto. A seguir, despedem-se e saem a passos duros. E sou amparada de volta ao quarto, quando entra o enfermeiro de plantão que percebendo não resultarem os remédios ingeridos, diz que chamaria seu comandante. Também, que o referido falaria com o médico, que por sua vez daria um atestado informando minha fragilidade e impossibilidade de comparecer ao julgamento. Assusto-me e em copiosas lágrimas rejeito a decisão, repetindo várias vezes que não o fizesse, por que; “assim seja de maca, eu vou.” Ele sai e retorna com o mesmo argumento. Continuo firme nos pedidos quase aos gritos, de que não telefonasse a ninguém, reafirmando: “Assim seja de maca, eu vou.” O enfermeiro persistiu na tentativa de convencer-me, e a tortura perdurou cerca de uma hora. Era um entra-e-sai de agentes que presenciaram a situação. Passo a noite escrevendo no preparo de uma das cartas dirigidas aos jornais. Com o emocional abalado, desespero, pressão psicológica, saúde precária, conflitos, preocupações, tempo escasso e muito mais a que estava acometida, não me dei conta das falhas no escrito. Abaixo, agrego reprodução jornalística publicada em 24 de setembro.

Está comprovado que pouco sei escrever corretamente, porém, não me correspondem todos os erros idiomáticos na mencionada edição.

Valentina se compara a Jesus Cristo.

Em carta-testamento, vidente se diz vítima da polícia, da mídia e da injustiça dos homens.

Valentina de Andrade só tem o primário, mas é atribuída a ela uma carta-testamento -que o DIÁRIO publica com exclusividade- na qual se compara a Sócrates, Galileu, Schopenhauer, Jesus Cristo e Nietzsche, perseguidos por suas convicções. A mulher que no próximo dia 29 será julgada como autora intelectual do assassinato de três crianças e tentativa de homicídio contra outros dois, em Altamira, endereça na carta supostamente assinada de próprio punho, quatro páginas de texto “a todos que me acusam especialmente aos que acreditam na minha inocência.”

Chama de incompetentes a “certos integrantes” policiais, civil e federal, e os acusa de “fabricar” culpados para dar uma satisfação ao Ministério da Justiça e à mídia.
Valentina também diz que foi condenada antecipadamente por setores da imprensa, em razão de sua convicção, e garante que L.U.S. (Lineamento Universal Superior) jamais incitou a morte, o terror ou qualquer tipo de maldade, como a emasculação infantil.

Quanto ao livro, “Deus, a grande farsa,” Valentina assevera que não se refere “ao Deus oniciente (sic) e onipresente que governa a existência em cujo lado direito encontra-se Jesus Cristo,” mas de um “deus mesquinho, invejoso, interesseiro e individualista, que se materializa entre aqueles que não evoluíram espiritualmente.” Ela se classifica como injustiçada, incompreendida, vítima de uma armação. O DIÁRIO não conseguiu comprovar a autenticidade do documento, mas optou por publicá-lo, mesmo com essa ressalva, porque foi obtido de fonte acreditada.

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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