Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

 

Mesma data (22-09).

Pela manhã sou avisada de que advogados desejavam falar comigo. Ao tomar conhecimento dos nomes a nenhum identifiquei. Acedi e fui levada a um cubículo contendo estreitas grades.

É permitida a entrada de um deles, que se dá a conhecer e me estende uma procuração que o declarava meu defensor. Tratava-se de um colega do Dr. Busato. Era jovem, mas senti confiança. Chamou-me a atenção seu olhar penalizado e extremamente bondoso. Recordo haver-me dito: “Vamos tirar à senhora daqui.” O “daqui,” significava da demoníaca conspiração. Soube que depois comentou ter visto “um trapo humano.” E era para menos? Finalmente ao amanhecer, fui encaminhada ao julgamento. O egrégio Dr. Dalledone, também sulista, me diz haver na frente do fórum uma grande manifestação a meu favor. Não havia necessidade de ver para crer, ou maiores explicações. De imediato pensei nos leais amigos argentinos. Soube depois, que lá estiveram pacificamente, distribuindo panfletos que estampavam minha inocência e injustiças sofridas.

Encontro forças e “enfrento” o plenário com passos claudicantes, mas procurando aparentar firmeza. Frente ao juiz fico estarrecida ao presenciar a renuncia de um advogado que me defendia sair do tribunal! Mas o assunto não parou por ali! Seu colega também exaltado reclama as públicas declarações do juiz: “Que me transferira para o presídio masculino, sabedor de que eu seria dopada pelos advogados, para evitar meu comparecimento ao julgamento.” Sem delongas, o causídico promete processá-lo o que posteriormente concretizou, segundo informações. Entrementes, sua excelência argumenta não ter nenhum sobrinho preso. (Em momento algum, a exceção do próprio juiz, foi dito ou sequer insinuado que o sujeito estava preso). Na balbúrdia me vi arremessada em outra acusação, como cúmplice das manobras advocatícias -jamais existentes- para adiar a sessão. Constatem quantos absurdos! Justamente eu, que mostrei claramente oposição aos intentos daquele enfermeiro. Na época, não imaginei tratar-se de um complot! Se houvesse assentido, então sim, teriam como argumentar sobre a veracidade do publicado. Ambos os advogados se retiram, ficando meu recente contratado.

Eu nada entendia daquela confusão, mas escutava sem direito a desfazer a tramóia que sim, houve, mas não partida de mim e tampouco dos advogados. Em seguida, o juiz invoca o art. sei lá que número e dirigindo-me seu olhar, atesta que se eu não apresentasse um advogado me seria designada uma defensora pública. Diante das novas infundadas acusações e tumulto, coloco-me de pé e respondo com voz segura: “Sr. Dr. Cláudio Dalledone Junior.”

Dada a recente contratação, faltava-lhe tomar conhecimento da totalidade do processo, e solicita transferência de data para informar-se. Diante risotas e protesto de alguns do público, percebi que mesmo a contragosto, o juiz não teve como indeferir.

E de lá, conduziram Valentina, algemada e acompanhada por carros em alarido, de volta ao presidio feminino. No quarto, a cama onde eu ficava fora ocupada desnecessária e maldosamente. Fiquei de pé, realmente exaurida e com três noites sem um dormitar, mal me sustentava. Não agüentando, peço a uma delas que me permita recostar na sua, o que acede. Repouso uns minutos, e posteriormente dou um sinal de $ para outra, conseguindo uma cama, pois lugar havia. Ali, um ou dois R$ valiam, e se moviam por eles.

Interessante, que nunca fui convidada a participar dos “aprendizados.” Estaria patente meu comportamento diferenciado e conhecida repulsa às mentiras? Por ser do Sul, ou a cor da minha pele? Não sei. O que posso afirmar, é que comigo não se importavam. Nada indagavam quando eu retornava como tampouco desejavam boa sorte ao me ir. Era simplesmente ignorada, mas não pelos noticiários que exaltavam barbaridades imagináveis e por imaginar, que eu seguia recusando ouvir, o que de todo era impossível pelo volume da televisão e o silêncio das ouvintes!

Em uma das visitas, noto meus familiares mais que preocupados. Indago e disfarçam dizendo que tudo se encaminhava a meu favor. Retornando ao quarto, uma das presas comenta que meus amigos foram detidos pela policia! Entro em crise nervosa, mas oculto. Chegado o dia dos telefonemas, meu esposo explica que a manifestação não era permitida para turistas estrangeiros, sendo que os argentinos deveriam deixar o país nas próximas 48 h ou seriam deportados.

Que estranho! Em Londrina não houve nada disso. Seriam diferentes as leis brasileiras, tendo cada Estado a sua, ou era perseguição ferrenha? Mas, principiava a crer nas palavras ouvidas, de que no Pará a justiça era duvidosa.

Os amigos ficaram durante horas seguidas na delegacia, até que, mediante telefonema de um deles que a tudo assistira de longe, acorreu a um dos advogados “faísca” que conseguiu o Hábeas Corpus e um salvo conduto. Direito a manifestações pacíficas fazem parte da Constituição brasileira, não constando exceção a estrangeiros. Os honrados acolhem as leis enquanto que outros...

Anteriormente, a polícia chega para um dos congressistas que estava sentado pelas proximidades e pergunta onde se encontravam os demais colegas. Na comprovação da lealdade entre nós, e o que sempre marquei quanto a falar a verdade, ele simplesmente apontou: “Ali.” Outro que estava em separado, ao assistir a detenção disparou ao encontro dos policiais e declarou-se partícipe do grupo, fazendo-se deter. Hoje rimos “a bandeiras despregadas,” e digo que está certo dizer a verdade, mas também, não precisam exagerar!

Dois meses transcorrem e é solicitado ao STJ, Hábeas Corpus para que eu respondesse em liberdade. “Surpreendentemente,” foi indeferido.

Naquele ínterim, meus advogados Dr. Busato, Dr. Dalledone e seu auxiliar Dr. Caio Fortes de Matheus, coletavam fabulosa quantidade de provas que demonstravam inequivocamente, as injustiças a mim, submetidas. Para que os leitores possam ter uma pálida idéia, uma só das volumosas caixas precisaria dois homens vigorosos para transportá-la. Por conseguinte, o processo aumentou de 15, para 60 grossos volumes.

 

Cena rara.

Tiro proveito deste espaço que sobrava e relato um acontecimento inusitado e também hilariante, não fosse o trágico que eu vivia.

Em certo momento e pleno júri, um freqüentador do Lineamento dava seu depoimento através de um vídeo. A tradutora se equivoca e dita outra palavra. De imediato e penso que intencionalmente, volta seu olhar para mim. Com a maior das naturalidades, fixo-a, e corrigindo, balbucio espaçadamente: “A p r e s s a d o”! Ela retifica a tradução, mas não entendendo o que mencionei torna a equivocar-se. Outro olhar, e novamente expresso: “A p r e s s a d o”! Assim, aconteceram umas três vezes, até que conseguindo captar o que eu lhe transmitia, acerta, e nossos olhares se cruzam novamente. Discretamente, entre um leve sorriso de contentamento levanto o dedo polegar e faço o sinal de positivo. Não é estranho que um réu auxilie seu oponente? Pois aconteceu! Fui útil e, descreio que aquela simpática senhora fizesse parte do rol dos (as) transgressores.



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
Banner