Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

UM COMPANHEIRÃO.


Sou extremadamente agradecida ao Sr. Dr. Cláudio Dalledone, quem muito me amparou também nas visitas ao presídio. Recordo o esforço que fazia para que eu continuasse subsistindo. Seus abraços eram afetuosos como os de um filho amoroso e jamais me afastou, permitindo que ao abraçá-lo, derramasse lágrimas em seu peito.

Uma tarde, agarrada a ele como náufraga ao salva-vidas, em prantos incontidos, bradei: "Doutor, elas pensam que sou criminosa! Não sabem a verdade." O angustioso desabafo partiu motivado por uma agente recém chegada das férias, e mesmo testemunhando a dificuldade com que eu subia a escadaria, foi incapaz de estender-me as mãos em auxílio. Meus lamentos? Os ouviu e duvido que se reconheça como perversa julgadora, igual a tantos. Algo de remordimento terá sentido quando a verdade dos fatos subiu à tona? Duvido. Naquela época eu ignorava onde ou quando o responsável pelos crimes a que me acusaram sairia a descoberto. Mas, confiava nas palavras de Meus Amigos cósmicos que me garantiam que o culpado em breve seria capturado e eu receberia informações que seriam de utilidade para quando reescrevesse este memorial. E assim acontece. Entretanto, nem sempre as possibilidades de se informar sobre um todo, existem, o que não significa que estou ignorando. É... o mundo dá suas voltas e manchetes contra quem retira embargos podem acontecer.

 

OUTRA ACUSAÇÃO IMPREVISTA!

 

Uma noite retornando do plenário percebo que uma das comprovadas lésbicas corre à janelinha do quarto. Não dou importância ao fato. Estou por desvestir-me quando subitamente entra a agente que me acompanhara e outra que a seguia. Rispidamente pergunta: “Dona Valentina? Onde estão os remédios que a senhora têm escondidos?” Com tranqüilidade, nego possuir. Raivosamente ela começa a revirar meus pertences que ficavam ordenados sob a cama em uma caixa de papelão. Peça por peça foram minuciosamente verificadas e amontoadas no chão sem que nada do procurado fosse encontrado. Enquanto isso, dizia algo significativo de querer ver a cara de pau que ficaria a denunciante. Em silêncio, eu e as demais a tudo assistíamos. Entretanto, uma delas, jovem e de raça negra com quem repartia minha comida e guloseimas (ela não recebia visitas), no turbamento do procura e não encontra, abre a desdentada boca e, agravando a situação afirma haver-me visto com “um montão de remédios.” Nisso, a outra agente delicadamente solicita que se eu tivesse deveria entregar, visto que; seria para meu próprio bem e o delas também. Reafirmei a negativa.

É de importância mencionar que a cada saída ou entrada, me revistavam de cima a baixo. Omito piores situações vexatórias que me foram impostas, por decoro e jamais supus existirem. O mesmo acontecia com meu marido e meu filho quando das visitas, sendo obrigados a se despirem completamente. Algum tempo depois a revisão para com eles tornou-se menos exigente.

Ao escutarem as afirmações repetidas pela desdentada, o assunto piorou. O magro colchão que eu ocupava foi retirado. Os lençóis e travesseiro -que deu enorme trabalho para que o juiz deferisse o pedido- foram esmiuçados e sacudidos. Colchão apresentável? Não foi obtida a licença para eu recebê-lo e os motivos nos são desconhecidos. Assim, continuei dormitando com o corpo tocando as quebradas tábuas do beliche. À bem da verdade, uma das agentes obsequiou-me com um a mais que sobrepus ao outro, mas em nada melhorou. Prendeu-me a atenção, que as meninas ao solicitarem recebiam sem contestações, mas para Valentina... tardou!

Todos os meus pertences foram revistados e faltou que as agentes usassem do olfato para melhor examiná-los. De pé e apática, eu esperava. Não dando final à busca, afastam o colchão da “rezadora” que dormia sobre o beliche que eu ocupava. A garota não gostou e reclamou firme e em tom alto: “Ei! Não desarrumem minha cama.” De nada adiantou. Após a revista ajeitei sua cama.

Terminada a minuciosa investigação, continuei na mesma posição e batendo levemente a ponta do sapato olhei para a fuxiquenta boçal e perguntei: “E daí? Cadê os remédios?” Pois a malfadada seguiu insistindo que viu, porque viu. As meninas ao me perceberam na pose e perguntas, passaram a ridicularizá-la. Dali em diante, evitou me olhar.

 

ASSUMO A LEIGUICE.

 

Algumas vezes ao narrar dos fatos, menciono: De raça negra. Ao dizermos aquele negro (a), por que é considerado discriminatório e ato delituoso? Quem o determinou? Foram os brancos ou os próprios negros? Entendo que preto seria ofensivo por tratar-se da cor, mas negro? Então, devemos igualmente sentir-nos ofendidos se nos apontarem dizendo branca (o)? Respostas devem existir, mas as desconheço. Assim que, peço escusas se ofendi o que asseguro não tive intenção. De passo, digo que na Argentina é comum o tratamento de negro (a), e considerada maneira afetuosa.

Chega um domingo no que estou com minhas queridas “visitas,” e vejo que a mexeriqueira não estava como de costume zanzando pelo pátio. “Tonta” que sou, vou ao quarto averiguar se algo lhe havia passado. Encontro-a sozinha e chorando. Aproximando-me, lhe afago a cabeça e pergunto se poderia ajudá-la. Responde não ter como falar com sua mãe, e que talvez um dos filhos, (da presa) tivesse adoecido. Indago o endereço para conectar sua família, dizendo que pediria a meu marido que buscasse informações. Responde que já o fizera através de outra pessoa. Seguro sua mão e digo: “Vês que não te quero mal pelo que você me fez?” Ela ficou calada. Volto rápida para minha família, pois cada minuto era preciosidade.

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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