Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

CADÊ? QUEM FOI?
PROCURA-SE.

(Usado quando da minha primeira apresentação perante o juiz).

 

Descrição do desaparecido: Elegantes e importados óculos de sol. Lentes ovais cor azul. Aros e extensões, que mal recordo a tonalidade, se dourada ou prateada.

Assino o Alvará e os reclamo, por havê-los entregue quando fui aprisionada e ficariam sob cuidados e responsabilidade da diretoria. Assim foi-me dito e acreditei. A diretora da ocasião busca em uma caixa que guardava objetos pessoais das prisioneiras e... Cadê? Tinha simplesmente, sumido!

Eu continuava requerendo o que me pertencia e não desistia da busca que também ajudei. A diretora telefona para outra, que entendi não se fez responsável pelo desaparecido. Mas, sigo pensando nele e repito: Cadê? Quem o escamoteou? Devolvam-no. Exijo o que me pertence.

Recadinho: Senhor óculo? Seu desavergonhado! Como entraste na lábia de quem te proporcionou a fuga? Por que não seguiu meu exemplo que a tudo suportei, não caindo em tentação? Você pecou e vai ter que se confessar. Mas, olhe bem; se por curiosidade vais assistir as rezas daquele padre e constatas ser verdade o que me disseram, dispare de retro.

Oh meu óculo tão bonito! Que olhos estarão por ti, cobertos do ardente sol? A que negrume vês, acreditando azul? Acautele-se meu querido, pois quem te surrupiou não tem boa índole e a qualquer momento, não faltará quem te queira envolver e obrigar a que assistas calado, maledicências imerecidas. Sei que não voltarás. Porém, eu e teus companheiros jamais te olvidaremos. Cuide-se.

E a gritaria não cessava. Assinado o Alvará, fui atender aos chamados. Apressei os passos e sempre acompanhada dos policiais me dirigi a cada dormitório, afagando mãos e mãos que me eram estendidas. Recebi palavras carinhosas que não deixei de agradecer, e observei que muitas das meninas tinham os olhos marejados. Chegando a um dos alojamentos onde estavam as que cumpriam regime semi-aberto, uma delas pede com humildade: “Desculpe dona Valentina, pelo mal que fiz pra senhora.” Surpreendida respondi: “Mas se você não me fez nenhum mal!” Baixou a cabeça e calou. Tempos após, deduzi que se referia ao grito: “A senhora vai morrer!”

Outro imprevisto foi que do mencionado castigo, as recém chegadas igualmente bradavam meu nome. Atendi, indo até onde podia levemente visualizá-las. Suas mãos entre as grades também se agitavam, e as mesmas palavras de felicidades e boa sorte, recebi.

Analisemos alguns desses fatos: Até o momento não encontro respostas satisfatórias as minhas inquietudes de então. Ex: Quê terá levado as presidiárias à tamanha algazarra festiva? A que se devia tanta emoção? Quê as motivou ao ouvirem declarada minha inocência, àquele alvoroço? Por que, no quarto que ocupei receberam-me com frialdade? Teria sido xenofobia à cor da minha pele, não originária daquele Estado? Que conclusões tiram os leitores?

Para as demais disse adeus e me fui. Evidentemente, o enxerido repórter que nos seguiu gravou aquele alvoroço, pois não tardou ser publicado que lá, eu fizera amizades. Mentira deslavada. Amizade? No sentido real da expressão não fiz uma só, como mentira também, que ao sair dos três dias do tal castigo, uma das meninas cedeu-me sua cama e dormiu no chão. Cala-te Valentina, não conte além, ou esquecerias que: Uma das mais belas virtudes que o ser humano deve desenvolver é manter o equilíbrio do silêncio, pois nele, poderá descobrir virtudes outras que podem se perder, por falar demais.

 

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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