Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

A UNIÃO POR DESESPERO.

 

... “você falou sério ao me propor casamento?” Aquiesce.

... Indago à proprietária se teria um quarto e cozinha para alugar.

... Sigo para onde morava, acarinhando a esperança de que me fosse pedido para ficar. Após beijar minha filha e prometendo vir buscá-la, beijei também minha cachorrinha, dando tempo àquela indiferente mulher, que impedisse minha saída. Levando minha esperança, deu-me as costas, sequer interessada em saber para onde eu iria. Saí carregando minhas valises, e enxugando as lágrimas, retornei ao trabalho.

À noite, Darcilio e eu tomamos o rumo da “nossa casa.” Meus sentimentos eram de pudor ao imaginar-me dormindo com um quase desconhecido a quem não Amava. Senti-me estranhamente mal e pensei na triste vida das prostitutas. Porém, eu nada cobraria! Não, nada cobrei e muitíssimo paguei. Poderia ter ido viver sozinha, mas, para não ser vista como independente e ser ainda mais assediada, preteri. Entretanto, o primordial era trazer minha filha e dar a ela, um pai.

 

Meados de 1953.
A princípio andávamos às escondidas dos moradores da cidade, mas logo ficou a descoberto. Assumimos, pois na verdade não tínhamos porque ocultar. Maiores de idade e livres de compromissos... livres? Nem tanto. Eu ainda não dera entrada à legalização para o desquite (Divórcio aqui, ainda não existia) e Darcilio...

... eu trouxe minha filha, fato que minha mãe não teve como impedir. Porém, não se conformava em cuidá-la apenas quando eu saía às noites para cantar. Que fez então? Praticamente ordena que Darcilio vá até ela, e enfatiza pestes sobre mim. Regressa zangado e conta-me tudo. Naquele então já sentia-me enamorada dele. Finalmente eu Amava, o que resultou na cobrança de um preço terrivelmente caro!

Uma tarde, ouço que batem à porta. Ao abri-la, deparo com uma jovem de aparência humilde que se identifica. Diz estar grávida de Darcilio e me pede que o deixe. Educadamente, respondo falaria com ele, sendo que a decisão lhe caberia. Quando chega explico o acontecido que assume. Ainda que surpreendida, dou passo à compreensão. Meses decorrem e Darcilio conta que o neném havia nascido. Digo que deveria reconhecê-lo, e vacilou. Ameacei deixá-lo se não o fizesse. Saiu e ao retornar, mostrou-me a certidão.

Eu continuava participando da orquestra. Quando saíamos para viagens, Darcilio nos acompanhava. Algum tempo depois mudamos para as proximidades de onde estávamos. A casa possuía cinco cômodos, onde o conforto e privacidade eram satisfatórios. Entretanto, a mulher (que não mais mencionarei de mãe) e seu fiel servidor entram em dificuldades financeiras e vêm morar conosco, pois jamais os abandonaria à sorte. Assim que, em uma das costumeiras manobras, ela encontra maneira de tirar-nos do interior da residência. No quintal foi construído um minúsculo quarto de madeira onde mal cabia uma cama de solteiro e para lá, Darcilio e eu passamos a viver. Na verdade, nada reclamamos. Para mim, importava estar minha filha, abrigada.

 

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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