Escrito por Valentina De Andrade   
Quinta, 13 de Maio de 2010 19:02

 

FOI ASSIM.
Dedicado aos desiludidos com a vida.

 

Todo negrinho e pequenino, movia suas asas inquietas. De repente lançou-se em um vôo que parecia interminável. Voou e voou até que muito longe foi parar. Sentindo-se extenuado e trêmulo, pousou sobre uma pedra diante do mar. As ondas respingavam águas em sua plumagem, o que nada lhe importava. Emanava desespero e se dizia: Não vejo um futuro decente. Meu passado tem sido de pura solidão. Enquanto outros da minha espécie tecem glórias de amor, eu me consumo em sonhos que não se fazem realidade. De que me adianta saber cantar, se não encontro ouvidos que saibam me escutar? De que vale poder voar, se meu vôo não leva consigo quem me queira acompanhar? Meus dias são tão vazios e as noites; solitárias. Não tenho esperanças de ouvir ao meu lado, um trinar que seja dirigido somente a mim e me permita sonhar. É... Sou mesmo um romântico frustrado. Estou descontente com a vida que levo. Não sei se continuo aqui, parado e trêmulo, ou se me deixo levar pelas águas do mar que terminarão com a minha agonia. Sinto-me tão cansado! Minhas patinhas tremulam e parece que perdi as forças que antes eu mantinha. Carrego um peso que acredito ser de um passado que nada deixou de valor. Ah... Que vida desgraçada é a minha! Será melhor eu morrer. E quando se preparava para fazer daquele pensamento, um fato, surgiu a sua frente como um relâmpago claro, uma silhueta delicada que pousou na mesma pedra. Trinando alegremente, insinuou um possível romance entre os dois. O coraçãozinho do tristonho pássaro bateu acelerado e a desanimada avezinha foi rapidamente recuperando o alento. Em silêncio se embebia daquele canto melodioso e afinado, ao mesmo tempo em que admirava a beleza que estava frente a si. E um novo pensamento o atingiu: Seria ela, aquela que eu anelava ou não passava de uma ilusão? Sim, era, porque eu sempre havia querido constatar que o amor entre as espécies, mesmo que moribundo ou adormecido poderia ser reativado. E levemente estremeceu. Ela, após demonstrar seus dotes de exímia cantora, aproximou-se dele para ainda mais, ser admirada. O pássaro mal conseguia manter-se de pé, tamanha a emoção sentida. Tentou trinar, mas seu pequeno bico parecia emudecido. Abriu-o então, e sorveu algumas gotículas das águas que batiam sobre as pedras, para refrescar sua garganta. E... Quando ambos se aproximaram até quase suas asas se tocarem, ela, toda coquete e insinuante, partiu direta ao que se propunha: Queres voar comigo?

Um tanto tímido e com a voz embargada, somente conseguiu mover sua cabecinha em resposta positiva. E aconteceu o convite: Pois então, venha. Iniciemos um vôo que não precisa ter sentido. O que importa é estarmos juntos. Sabes? Venho de muito longe, escapando da morte, sendo perseguida, mas nunca deixei de lutar ou acreditar que encontraria uma razão para a minha vida. Se não tens companheira... Vem. Vamos voar. Ele não mais tremia e mostrava sinais de haver readquirido a antiga fortaleza para enfrentar altos vôos. Lançaram-se então sem rumo conhecido. Voaram e voaram. Atravessaram nuvens e não mais os divisei. Entretanto, eu não poderia deixá-los à deriva, e rapidamente, como Consciência cósmica que sou, plasmei-lhes uma frondosa árvore de sonhos e esperanças que não podem ser perdidos. Assim, em suas ramas e flores, os pássaros se acariciaram e adormeceram, não sem antes planejarem a construção de um ninho. Pela manhã, ambos voaram alegremente, cada qual carregando no bico pequenas folhagens e ramas. Após um dia exaustivo o ninho ficou pronto e por primeira vez, adormeceram juntinhos. Observando-os, soltei rocios sobre a árvore. Quando o pássaro despertou, aproveitou as gotículas que se acumularam entre as palhas e as colocou sobre a plumagem da sua amada, e delicadamente a penteou. Ao acordar, a passarinha sentiu cair em seu bico outras gotas que bebeu como se fora o néctar do amor. Amor que salvou uma vida, mostrando que não se havia perdido.

 



Actualizado: Segunda, 29 de Outubro de 2018 20:09
 
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